- Continente tem resistência histórica aos biocombustíveis sob argumento de competir com alimentos e causar desmatamento
- UE aposta em eletrificação para reduzir uso de fósseis, mas SAF surge como alternativa na aviação
O Brasil quer construir uma aliança com Argentina e Paraguai para tentar diminuir a histórica resistência da Europa aos biocombustíveis —como o etanol ou SAF (de aviação)— vindos da América Latina.
O movimento acontece em um momento no qual a União Europeia trabalha em duas pautas que podem dificultar a importação desses combustíveis sustentáveis.
Para os países da América Latina, o interesse é expandir as vendas para um grande mercado consumidor e que, nos últimos anos —sobretudo desde as guerras da Ucrânia e no Irã— vem reduzindo o consumo de fósseis.
Jerônimo Goergen, ex-deputado federal e hoje presidente da Aprobio (Associação Brasileira de Biocombustíveis), afirma que ainda é necessário alinhar um discurso, uma vez que Brasil, Paraguai e Argentina usam matérias-primas distintas nas suas respectivas produções.
Se os argentinos baseiam seus combustíveis na soja, o agro brasileiro prefere o milho ou a cana-de-açúcar. “Queremos buscar uma unificação de posição”, diz.
“Estamos vivendo um processo de internacionalização do setor. Europa, Japão, Canadá, todos têm potencial de compra e temos que ver de que forma a gente vai entrar nesses mercados. Eles não têm a capacidade produtiva que temos, só o Brasil consegue abastecer o mundo com SAF, biodiesel e etanol”, completa.
Por enquanto, os europeus optam pela eletrificação, indústria dominada pela China.
As duas guerras fizeram o preço do petróleo e do gás natural explodir e expuseram a dependência europeia da importação dessas duas fontes vindas de países do Oriente Médio, no primeiro caso, e sobretudo da Rússia, no segundo caso.
Por isso, desde 2022, a União Europeia lança mão de programas para diversificar seus fornecedores de combustíveis e criar alternativas aos fósseis.
A parcela de renováveis dentro do sistema elétrico do bloco econômico, por exemplo, passou de 35% para 48% entre 2020 e 2024. A UE definiu a meta de chegar a 70% de renováveis em sua matriz energética até 2050.
Segundo diplomatas do Brasil e da União Europeia com quem a Folha conversou sob reserva, neste momento não há interesse na importação de biocombustíveis para substituir os fósseis, como gasolina e diesel.
Não à toa o foco da UE na América Latina agora são os minerais críticos e as terras raras, essenciais para a indústria elétrica renovável (baterias ou painéis solares, por exemplo). O grupo já tem protocolos de intenção assinados com Chile e Argentina, e busca agora um com o Brasil, onde miram quatro projetos de mineração para apoiar e possivelmente investir.
NA EUROPA
Tramita no Parlamento Europeu atualmente uma resolução que faz com que, a partir de 2030, os biocombustíveis de óleo de palma e de soja não sejam considerados para fins de descarbonização —em outras palavras, isso classifica esses produtos como não sustentáveis. O texto deve ser votado até agosto.
A medida não tem efeito específico sobre as importações, mas segundo agentes do setor, se aprovada, deve favorecer ainda mais o setor elétrico em detrimento de alternativas como o etanol e o biodiesel.
Sob reserva, negociadores admitem que, uma vez aprovada a resolução, é possível sua ampliação para o milho ou a cana.
Além disso, o Parlamento Europeu debate uma nova norma geral de renováveis —a atual vale até 2030. O tema está em consulta pública.
Os europeus devem redefinir o que é considerado um biocombustível sustentável e, mais uma vez, a disputa entre setores deve se repetir.
Hoje a Europa não é um grande mercado para esses produtos brasileiros. Em 2025, segundo dados do Ministério da Indústria, o país exportou 1,6 bilhão de litros de etanol, e pouco mais de 200 milhões foram para o continente.
O acordo UE-Mercosul prevê cotas de mais de 800 milhões de litros para o etanol produzido na América do Sul, o que pode ampliar este fluxo.
Produtores também apostam no biodiesel —setor que hoje exporta apenas 1% de toda sua produção.
“O setor de biodiesel tem muito a ganhar com embarques de maior regularidade para a Europa e o continente pode se beneficiar em ter uma solução imediata de descarbonização que também reduz a dependência do diesel fóssil em situações de crises globais”, diz Erasmo Carlos Battistella, presidente de Be8.
Sua empresa já tem uma usina na Suíça e recentemente abriu um escritório comercial na Itália.
Produtores brasileiros pretendiam viajar para a Europa nas últimas semanas para conversar com integrantes da União Europeia sobre o assunto, mas preferiram suspender os planos e, primeiro, criar a aliança com Argentina e Paraguai.
A iniciativa partiu do Brasil e as conversas ainda estão em estágio preliminar.
Segundo estudos feitos na Europa, os combustíveis com base vegetal utilizam as mesmas lavouras que poderiam produzir alimentos. Portanto, a escolha pela primeira opção contribui para a insegurança alimentar.
O argumento europeu então é que essa possibilidade contribui para o desmatamento florestal.
Produtores brasileiros encomendaram um estudo da USP para se contrapor aos europeus. O foco é demonstrar que, se na Europa a produção é baseada em uma safra por ano, as condições na América Latina permitem dois ou até três ciclos por ano.
Esse mesmo argumento é usado pelos brasileiros para demonstrar que os combustíveis sustentáveis não exigem novo desmatamento, uma vez que usam áreas já plantadas, e não em novas lavouras.
A Europa é mais aberta aos biocombustíveis na aviação, como o SAF. Hoje, porém, quase todo o combustível sustentável usado pelos aviões europeus é produzido a partir da reutilização do óleo de cozinha, não de vegetais.
Além disso, o mercado não é grande: nas projeções mais otimistas, a Europa só deve atingir a marca de 10% de uso de SAF na aviação em 2050 (Folha, 20/6/26)
Petrobras aprova R$ 6 bi para produção de combustíveis renováveis em Cubatão
- Planta terá capacidade de 15 mil barris por dia de bioQAV e diesel renovável
- Obras devem começar ainda em 2026, com início de operação previsto para 2030
O conselho de administração da Petrobras aprovou nesta sexta-feira (19) investimento de US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6 bilhões) para produzir combustíveis renováveis na refinaria de Cubatão (SP), na Baixada Santista.
O projeto prevê uma planta com capacidade para produção de até 15 mil barris por dia de bioQAV (querosene de aviação) e de diesel renovável, com entrada em operação prevista para 2030. As obras devem ser iniciadas ainda este ano.
A estatal já analisava o processo em seu plano de negócios para o período entre 2026 e 2030, mas estava condicionado à situação de financiabilidade da companhia. O plano foi elaborado com petróleo na casa dos US$ 60 por barril e, por isso, exigiu cautela da estatal.
Após a guerra no Irã, o barril chegou a encostar em US$ 120. O preço recuou nas últimas semanas com as notícias sobre acordo de paz, mas é consenso no mercado que demorará a voltar a patamares pré-guerra. Nesta semana, o Goldman Sachs estimou o preço em US$ 70 para o último trimestre.
“O projeto está alinhado ao comprometimento da Petrobras em liderar a transição energética justa no país e aos compromissos globais do setor de aviação”, afirmou a estatal, em comunicado ao mercado divulgado no início da noite desta sexta.
O bioQAV será necessário para o cumprimento de metas da aviação global e do programa Combustível do Futuro, que prevê a descarbonização do setor aéreo brasileiro. Já o diesel renovável é uma das principais apostas da estatal para a descarbonização de sua carteira de produtos.
A estatal decidiu focar sua estratégia renovável na produção de combustíveis líquidos, em vez de apostar em geração de energia, como outras petroleiras.
O plano de investimentos da Petrobras entre 2026 e 2030 tem um orçamento de US$ 109 bilhões (R$ 580 bilhões). O valor é 1,8% inferior ao vigente no plano anterior, aprovado em 2024. Embora a queda no valor global seja pequena, a empresa rebaixou uma série de projetos, que terão que passar por novas avaliações.
O plano separa US$ 3,1 bilhões para as chamadas energias de baixo carbono, como eólica, solar e hidrogênio. No plano anterior, eram US$ 5,7 bilhões. Já o orçamento para bioprodutos, como etanol e biocombustíveis, subiu de US$ 4,3 bilhões para US$ 4,8 bilhões.
“Nesse quinquênio, nossos investimentos em transição energética vão ter mais foco em bioprodutos. Estamos mais de olho na molécula, etanol, biodiesel além desse diesel maravilhoso renovável que usamos na COP30”, disse na época da divulgação do plano a presidente da empresa, Magda Chambriard (Folha, 20/6/26)









