Por Ronaldo Knack
Em artigo assinado e publicado na última 4ª feira (12) aqui no BrasilAgro (https://www.brasilagro.com.br/conteudo/fiat-147-um-carro-que-ajudou-a-acelerar-a-historia-do-etanol-brasileiro.html) o empresário Maurilio Biagi Filho conta em detalhes a história do início da utilização do hoje etanol (à época álcool) nos primeiros veículos produzidos pela Fiat. A iniciativa colocou o Brasil na vanguarda global do uso de biocombustíveis em substituição aos combustíveis fósseis.
Inspirados no empreendedorismo de Maurilio Biagi Filho e até em sua homenagem, vamos mostrar a versão real do lançamento da tecnologia flex fuel que poderia ser rotulada como “Proálcool 2” e que no início da década de 90 salvou a indústria automobilística de grave crise de vendas.
“Grito pelo Emprego e pela Produção”
Para facilitar a compreensão e o contexto da versão real da tecnologia bem como para mostrarmos a diferença entre “fato e versão” tão presentes nas redações das mídias analógicas e digitais, vamos recorrer à Inteligência Artificial do Google:
“O movimento Grito pelo Emprego e pela Produção eclodiu em abril de 1999, tendo seu epicentro em Sertãozinho (SP) e forte atuação na região de Ribeirão Preto. O movimento reuniu usineiros, produtores de cana, sindicatos de trabalhadores e indústrias de bens e serviços em uma agenda única para cobrar ações dos governos estadual (Mário Covas) e federal (Fernando Henrique Cardoso).
Motivação: Grave crise no setor sucroenergético e falta de incentivos ao Proálcool.
Atos públicos: Distribuição gratuita de álcool e paralisações para chamar a atenção sobre o desemprego no campo.”
O movimento do qual fomos estrategistas e coordenadores ao lado do sindicalista Antonio Vitor (Força Sindical e Federação dos Trabalhadores na Indústria da Alimentação do Estado de São Paulo) e com o apoio do empresário Maurilio Biagi Filhon questionava além da falta de políticas públicas para o setor sucroenergético a determinação da Anfavea – Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores em reduzir drasticamente a produção de veículos movidos a álcool.
Para contrapor o argumento falacioso estimulado pela Anfavea de que não havia mais mercado para os carros movidos a álcool, foi criada em Sertãozinho a “Aproverde”, uma ONG para recrutar interessados em comprar veículos 0 km com motores a álcool. A ONG conseguiu reunir milhares de interessados, grande parte deles funcionários e fornecedores das usinas, para a compra de veículos movidos a álcool.
Em meio aos atos de protesto, com fechamento de estradas, distribuição gratuita de álcool e com forte apoio da mídia, a VW foi instada a participar de uma reunião com os organizadores do movimento. A reunião foi realizada no auditório da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto. De São Paulo, vieram diretores da montadora e os organizadores reuniram dezenas de ônibus transportando trabalhadores de usinas da região que paralisaram o centro da cidade.
Na reunião os dirigentes da VW receberam cópias das listas de interessados na aquisição de carros a álcool, desmistificando a narrativa falsa de “falta de mercado”. Ao mesmo tempo, os organizadores do movimento deixaram vazar à imprensa a intenção de promoverem um ato de protesto na sede da Anfavea em São Paulo (Rua Higienópolis nº 496, Moema).
Confrontada a VW tirou da “gaveta” a tecnologia flex fuel
Poucos dias depois, uma notícia de pouco não mais do que 10 linhas na Folha de S.Paulo, anunciava que a Bosch desenvolvera em sua unidade industrial de Campinas desde 1991 uma tecnologia que permitia o uso simultâneo de álcool e gasolina. A tecnologia já estava testada e, literalmente, encontrava-se guardada para ser utilizada ou não de acordo com as circunstâncias.
Ao comunicarem aos organizadores do movimento que a VW estava se adequando para lançar os primeiros veículos com a nova tecnologia, juntos com a informação acompanhou o pedido para que fossem desativadas as ações para a ocupação da sede de Anfavea em São Paulo. Pedido feito e imediatamente aceito.
Após o lançamento em 2003 do Gol 1.6 Total Flex atualmente cerca de 90% da linha de automóveis leves fabricados no país adota a tecnologia flex. O restante do volume fabril foca em eletrificados (elétricos e híbridos). Não há grandes montadoras globais de relevância comercial que produzam hoje exclusivamente veículos a gasolina. A transição energética do setor automotivo e as exigências globais de redução de emissões tornaram esse modelo obsoleto em termos corporativos.
Versão “oficial”
“A tecnologia flex fuel surgiu no Brasil no início da década de 1990, com os primeiros testes práticos em 1991 e o desenvolvimento oficial a partir de 1994 pela Bosch. Ela chegou ao mercado em março de 2003, quando a Volkswagen lançou o Gol 1.6 Total Flex, o primeiro carro bicombustível em larga escala do país.
O contexto e como a tecnologia surgiu
A criação do motor flexível nasceu para solucionar a instabilidade do abastecimento de etanol, que sofria com crises e escassez sempre que as usinas preferiam produzir açúcar para o mercado internacional (fake news)
- O estalo inicial: Engenheiros da Bosch no interior paulista testaram misturas extremas de álcool em motores a gasolina em 1991, percebendo a viabilidade de um sistema adaptativo.
- A solução técnica: O sistema utiliza a sonda lambda (sensor de oxigênio) e softwares avançados de injeção eletrônica para identificar sozinho a proporção exata de gasolina e etanol no tanque, ajustando instantaneamente o ponto de ignição e a injeção de combustível.
A chegada ao mercado e consolidação
- Pioneirismo em 2003: O Volkswagen Gol 1.6 Total Flex inaugurou a era comercial do sistema no Brasil.
- Adoção em massa: Outras montadoras seguiram o exemplo rapidamente, eliminando a dependência exclusiva de um único combustível e conquistando o consumidor pela liberdade de escolha no posto.
- Evolução recente: Décadas após o lançamento original, a tecnologia continua avançando no país, integrando-se inclusive a sistemas híbridos.” (IA Google)
Fato e versão
Na verdade as montadoras não tiveram interesse em produzir veículos movidos a biocombustível por ser o Brasil, à época, o único país com estrutura para produzir o álcool de cana-de-açúcar que concorria com a gasolina de origem fóssil. Em seu artigo Maurilio Biagi Filho lembra a crise promovida pela Petrobras que também se opunha ao álcool e deixou, intencionalmente, de distribuir o produto estocado em seus tanques.
Os mentores da crise artificial que ocorreu no quarto trimestre de 1989 se agravando na última semana de dezembro. Enquanto a Petrobras culpava os usineiros pelo “desabastecimento” seus “porta-vozes” se esqueceram que o etanol distribuído ao longo de 12 meses é produzido em cerca de 8 a 9 meses, que correspondem ao período de safra da cana-de-açúcar.
Os meses restantes formam a entressafra quando os estoques nas usinas e nas distribuidoras estão no seu limite máximo. Fica aqui registrada a diferença entre os fatos narrados por Maurilio Biagi Filho e repercutidos aqui neste artigo e as narrativas falsas divulgadas à época pela Petrobras.
(Ronaldo Knack é Jornalista e bacharel em Administração de Empresas e Direito. É também fundador e editor do BrasilAgro que em várias plataformas têm mais de 1 milhão de seguidores; 14/8/26)








