Por Luciana Franco
Novo crédito tributário cria incentivo econômico e valoriza práticas de conservação do solo e redução de emissões.
Os Estados Unidos estão criando uma conexão cada vez mais direta entre as práticas adotadas dentro da propriedade rural e o valor econômico dos biocombustíveis. A mudança ocorre por meio do crédito tributário 45Z, instituído nesta semana, que beneficia produtores de combustíveis de baixa intensidade de carbono.
Até recentemente, o cálculo estava concentrado principalmente na indústria. Agora, a origem da matéria-prima também passa a contar.
O modelo desenvolvido pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o FD-CIC (Feedstock Carbon Intensity Calculator), permite estimar a intensidade de carbono de matérias-primas agrícolas a partir de informações como produtividade, localização, uso de fertilizantes e práticas de manejo.
Isso muda a lógica econômica da cadeia. Um milho produzido com práticas que reduzem emissões pode apresentar uma intensidade de carbono menor e, consequentemente, contribuir para reduzir a intensidade de carbono do etanol produzido a partir desse grão. Para a usina, isso pode significar maior valor associado ao crédito 45Z.
É nesse ponto que está a principal novidade: a produção ou redução de carbono no campo começa a ter valor dentro da indústria de combustíveis.
O 45Z não implica, no entanto, em pagamento direto ao agricultor. O crédito tributário pertence ao produtor de combustível. O que a nova regra cria é a possibilidade de que parte desse valor seja capturada pela agricultura por meio da valorização de matérias-primas de menor intensidade de carbono.
É justamente essa conexão que explica a reação positiva da indústria de biocombustíveis. Ao afirmar ao site Brownfield Ag News que os agricultores poderão “se beneficiar” do 45Z, Chris Bliley, vice-presidente sênior de assuntos regulatórios da Growth Energy, comemora que uma prática adotada na fazenda possa ter potencial para gerar valor comercial dentro da cadeia do etanol.
Novas regras
Em 8 de setembro, o IRS (Internal Revenue Service) publicou o Notice 2026-53, enquanto o Departamento de Energia atualizou o modelo 45ZCF-GREET. A orientação permite incorporar determinadas práticas agrícolas reconhecidas pelo USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, sigla em inglês) ao cálculo da intensidade de carbono dos combustíveis.
Antes disso, em junho, o USDA lançou o sistema para calcular a intensidade de carbono da matéria-prima agrícola, considerando, entre outros fatores, práticas como plantio direto ou reduzido e culturas de cobertura. A regra entrou em vigor em julho.
O potencial econômico ajuda a dimensionar o interesse do setor. Uma simulação da Universidade de Illinois estimou que, em determinado cenário, um produtor com produtividade de 220 bushels de milho por acre e práticas de menor carbono poderia gerar cerca de US$ 98,80 por acre, ou aproximadamente US$ 244 por hectare, em valor potencial associado ao crédito.
Trata-se do valor potencial criado para a cadeia a partir da menor intensidade de carbono. Quanto desse montante será efetivamente repassado ao produtor dependerá da negociação entre agricultores, cooperativas, tradings e usinas, além dos custos de certificação e rastreabilidade.
Ainda assim, o mecanismo cria um novo incentivo econômico. Práticas que antes eram valorizadas principalmente pelos ganhos de produtividade, conservação do solo ou redução de emissões passam a poder ser incorporadas ao preço da matéria-prima.
O tamanho potencial desse mercado também é relevante. Segundo o USDA, cerca de 6 bilhões de bushels de milho por ano são destinados à produção de etanol nos Estados Unidos, enquanto 68% dos produtores de milho já adotam ao menos uma prática considerada regenerativa.
Novidade nos Estados Unidos, o estímulo à produção de bicombustíveis mais limpos já é realidade no Brasil há alguns anos. O país adota desde 2017 o RenovaBio, que utiliza a intensidade de carbono para diferenciar os biocombustíveis e gera os CBIOs, ativos ambientais negociados no mercado.
A diferença é que nos Estados Unidos o 45Z é um crédito tributário concedido ao produtor de combustível, enquanto o CBIO é um ativo ambiental negociável associado ao desempenho ambiental dos biocombustíveis dentro do RenovaBio.
O movimento americano sinaliza uma tendência que pode ganhar importância nos próximos anos: o carbono deixa de ser apenas uma métrica ambiental e passa a integrar cada vez mais a formação de valor das commodities agrícolas (CNN, 10/9/26)










