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Doce em Dólar, amargo em reais

Por Arnaldo Luiz Corrêa

O mercado futuro de açúcar em Nova York encerrou a sexta-feira com o março/27 cotado a 20.27 centavos de dólar por libra-peso, alta de 35 pontos na semana, quase US$ 8 por tonelada. O saldo é modesto e não conta a viagem. Na segunda-feira o contrato rompeu os 20 centavos de dólar por libra peso e fechou a 20.73; na quarta tocou 21.24, maior nível desde fevereiro de 2025; na quinta devolveu 68 pontos de uma só vez e na sexta-feira ganhou apenas 13 pontos. O elevador que na semana passada chegava ao vigésimo andar subiu até o vigésimo primeiro, espiou a vista e voltou.

Os fundos foram os principais protagonistas dessa escalada de preços. Segundo o COT (Commitment of Traders) publicado nesta sexta-feira pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission) agência americana reguladora dos mercados de commodities, com base na posição de terça-feira passada, os fundos estavam comprados 212,559 contratos um acréscimo de 60,442 contratos em apenas uma semana.

Não foi a maior compra semanal do ano: na semana encerrada em 11 de agosto os fundos compraram 116,888 contratos, quando descobriram que estavam do lado errado e viraram a mão de vendidos para comprados. O interessante é que agora o mercado sobe com mais força e com menos volume, possível sinal de que falta vendedor do outro lado. Leia-se: as usinas já estão bem adiantadas nas fixações da próxima safra.

Fica o alerta. Muito se fala da cana bisada e do volume extraordinário de açúcar que ela promete para o ano que vem. Pode ser. Mas açúcar já fixado não volta à tela para pressionar preço, e qualquer ruptura climática ou geopolítica pode manter acesa a chama dos preços remuneradores.

Outro sinal de alerta: mesmo depois de uma semana de compras desse tamanho, os fundos detêm apenas 18% da posição em aberto total, muito aquém dos quase 25% que carregavam em fevereiro deste ano, quando apostavam, com a mesma convicção, na ponta vendida. Não há pressa nem risco desmedido que os obrigue a liquidar uma posição vencedora como essa.

Os fundos, é verdade, tiveram ajuda: a chuva que atrasa a moagem no Centro-Sul, a monção indiana 12.6% abaixo da média, a Tailândia com produção projetada em cerca de 10 milhões de toneladas (17% menor), a beterraba europeia com produtividade também 17% inferior à do ano passado e o déficit global de 0.2 milhão de toneladas que a ISO projeta para 2026/27.

A Índia completou o quadro: a ISMA declarou que exportar em 2026/27 está “fora de questão” e que o país deve recorrer ao 1 milhão de toneladas de açúcar bruto já liberado para importação. No Paquistão, o governo tentou exportar 107,739 toneladas de açúcar branco pedindo cerca de US$ 660 por tonelada, num mercado que paga entre US$ 505 e US$ 515. Não apareceu um único lance, o que surpreendeu apenas o vendedor.

Os números do Centro-Sul explicam parte do nervosismo. Até 15 de setembro, a moagem acumulada somava 443.71 milhões de toneladas, 1.5% abaixo do ano passado, na primeira queda desta safra. A produção de açúcar, de 26.07 milhões de toneladas, recuava 14.4%, enquanto a de etanol, com 22.94 bilhões de litros, crescia 8.7%. Só na primeira quinzena de setembro a moagem caiu 34.2% e o açúcar, 41.6%.

A cana que a chuva não deixou colher fica para 2027/28, safra que já prometia ser grande. E o Brent, que voltou a superar US$ 100 na quinta-feira com os ataques a petroleiros no Oriente Médio, dá à usina mais um motivo para manter o mix no etanol. Os dados da segunda quinzena de setembro ainda não saíram e serão o próximo teste para o prêmio de risco embutido nos preços.

Acima dos 21 centavos, porém, o comprador físico recuou. Compreende-se: quem achou caro a 14 centavos de dólar por libra peso não haveria de achar barato a 21 centavos de dólar por libra peso. E mercado que sobe 40% desde julho tem o direito de parar para respirar.

O acontecimento da semana, no entanto, foi o câmbio. Depois do primeiro turno da eleição, com vitória acachapante da direita, o dólar caiu 4.4% na semana e encerrou a sexta-feira cotado a R$ 4.9866. Feita a conta, o março/27 valia cerca de R$ 2,292 por tonelada na sexta-feira anterior e vale hoje R$ 2,228. Nova York subiu 1.7% e a receita em reais caiu 2.8%. É o tipo de alta que se comemora em inglês e se lamenta em português.

Nosso colaborador Marcelo Moreira, que na semana passada avisou que um real forte depois da eleição ajudaria Nova York a romper os 20.65 centavos (rompeu já na segunda-feira), põe o dedo na mesma ferida com um horizonte mais longo. O março/27 negociou a 21.24 centavos, máxima da semana e, para este vencimento, dos últimos dois anos, vindo de 17.60–17.70. No mesmo período, o dólar saiu de R$ 6.35 para R$ 5.00.

Pelo fechamento de hoje, o açúcar equivale a R$ 2,228 por tonelada, contra R$ 2,420 no último bimestre de 2024. Em dólar, o contrato vale 15% mais; em reais, quase 8% menos. Segundo Marcelo, o março/27 tem suportes em 19.85, 19.77 e 18.93 centavos de dólar por libra-peso e resistências em 20.92 e 21.24.

A lição é antiga e segue ignorada: usina não paga folha em centavos de dólar por libra-peso. Quem fixou Nova York e deixou o câmbio para depois fez metade do hedge, e a metade que faltou foi justamente a que mais se mexeu. Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, o real ainda vai dar trabalho.

A receita continua a mesma: fixar em degraus, aproveitar os repiques para a região de 20.80 a 21.00 centavos, onde está a primeira resistência apontada pelo Marcelo, proteger o piso com puts em vez de vender tudo de uma vez e tratar o dólar com a mesma disciplina dedicada à tela. Hedge continua sendo o que sempre foi: seguro de margem.

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