Novas estimativas no mercado apontam recuo entre 10% e 16% em relação ao volume de 49 milhões de toneladas de 2025.
Sem sinais no horizonte que apontem para o fim da guerra no Oriente Médio e com produtores rurais enfrentando restrição de crédito, a crise na indústria de fertilizantes se agrava no Brasil. Além da alta dos insumos, como o enxofre, o setor enfrenta queda na demanda, que poderá ser ainda menor do que se imaginava nos meses seguintes ao início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã.
Após o recorde do ano passado, quando o consumo no país somou 49,1 milhões de toneladas, estimativas no mercado indicam que o volume pode voltar aos níveis de 2022. No início daquele ano, a Rússia atacou a Ucrânia — ambas produtoras de fertilizantes —, e a demanda ficou em 41 milhões de toneladas. A nova projeção reflete o adiamento de compras e a redução da adubação nas lavouras em meio aos custos altos e crédito restrito.
Em agosto, a projeção estava em cerca de 45 milhões de toneladas, segundo a consultoria Argus. “No entanto, a ausência de demanda de última hora para o plantio da safra de soja 2026/27 e o ritmo das importações de fertilizantes nitrogenados levaram participantes a revisar as estimativas”, afirma Renata Cardarelli, responsável por precificação de agricultura e fertilizantes da Argus.
Em julho, cinco meses após o início do conflito no Oriente Médio, o mercado estava menos pessimista e projetava uma queda de 10%, conforme reportagem publicada pelo Valor na época.
De lá para cá, além da “destruição” da demanda, houve uma paralisação temporária ou fechamento de fábricas no Brasil devido à escassez de enxofre no mercado, o que contribuiu para reduzir a oferta de fosfatados. “Quando somamos tudo isso, faz sentido pensar que realmente vai ser um consumo total abaixo de 42 milhões de toneladas”, diz Ana Lígia Lenat, coordenadora de inteligência e projetos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
A multinacional Mosaic, que anunciou paralisações temporárias ou parciais em cinco plantas no Brasil e redução da produção em duas unidades de mistura, calcula uma queda de 10% a 15% nas entregas de fertilizantes do mercado em geral, que ficaria entre 42 milhões e 44 milhões de toneladas.
O vice-presidente comercial da Mosaic, Felipe Pecci, afirma que o mercado pode chegar a 2027 com estoques menores, importações reduzidas e produção local limitada pela dificuldade de acesso ao enxofre. “É uma situação preocupante e meio sem precedentes no nosso mercado”, diz o executivo.
De acordo com Pecci, uma demanda inferior a 42 milhões de toneladas em 2026 não está descartada, mas isso vai depender de fatores ainda não confirmados, como o atraso nas compras para a safrinha, o impacto do fenômeno El Niño e as restrições chinesas às exportações de sulfato de amônio.
O levantamento mais recente da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) aponta que as entregas de fertilizantes no país somaram 22,9 milhões de toneladas de janeiro a julho, queda de 8,8% em relação ao mesmo período de 2025. Em julho, foram 3,9 milhões de toneladas, retração de 22,3% na comparação anual.
A produção nacional de fertilizantes intermediários encerrou julho com 517 mil toneladas, queda de 19,9%. De janeiro a julho, foram 3,3 milhões de toneladas, recuo de 19,7%. Segundo a Anda, o número deve-se sobretudo às sucessivas altas recentes do enxofre, insumo para a produção de fosfatados.
Nas últimas sete semanas, os preços do enxofre tiveram retração de 23%, segundo a consultoria StoneX, o que fez com que o insumo voltasse a ficar abaixo dos US$ 1.000 a tonelada. Porém, a indústria considera a queda insuficiente para trazer alívio ao segmento.
“O patamar histórico é de US$ 100. Em outubro do ano passado, quando ainda não havia a guerra, mas já havia a demanda pela transição energética, já chegou a US$ 600. O problema é muito maior do que [o estreito de] Ormuz”, afirma Bernardo Silva, diretor-executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert).
“O mercado de fertilizantes, no curto e médio prazo, principalmente, continua sob risco e com pressões que não parecem ter soluções imediatas”, avalia.
A revisão das projeções acontece num momento em que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta alta de 1,4% na área de soja da safra 2026/27 — o menor avanço dos últimos 20 anos. O órgão calcula que o Brasil irá colher 181,6 milhões de toneladas de soja no ciclo atual, mas há o temor de que esse número seja influenciado pelo El Niño.
Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Mauricio Buffon, muitos produtores estão recorrendo à reserva de fósforo acumulada no solo em anos anteriores, uma espécie de “poupança” que permite reduzir temporariamente a reposição. “É óbvio que quando você reduz um pouco o fertilizante, há uma queda de produção, mas para passar esse momento é uma ação que tem de ser feita. Ou você faz isso, ou aumenta o endividamento”, observa.
O cenário de alta dos insumos e recuo na demanda de agricultores afeta os resultados das empresas. Ontem, a norueguesa Yara informou que seu lucro líquido no terceiro trimestre caiu 37,8% na comparação anual, para US$ 199 milhões.
“O mercado de fertilizantes segue enfrentando desafios que comprometem a dinâmica do setor e o ritmo de compras pelo produtor, que, além das questões geopolíticas, precisa lidar com pontos relacionados à rentabilidade de algumas culturas e às restrições de crédito”, diz o vice-presidente de vendas da Yara Brasil, Diogo Rezende, em nota enviada ao Valor (Globo Rural, 23/10/26)
Em crise, indústria de fertilizantes aposta na retomada em 2027

Setor deve encerrar 2026 com forte queda nas entregas, mas novas demandas apresentam potencial para aquecer os negócios no próximo ano.
A indústria nacional de fertilizantes aposta na retomada do segmento em 2027, após uma crise que deve derrubar a entrega de produtos no país em 2026. Projeções que sinalizam crescimento do volume comercializado no próximo ano foram apresentadas durante o 20º Simpósio Sindiadubos NPK 2026, na última quinta-feira (22/10), em Curitiba.
A estimativa é de que o volume de entregas alcance 47,5 milhões de toneladas no ano que vem. Após um recorde de 49,1 milhões de toneladas em 2025, a indústria vive momento de retração no país. As estimativas mais recentes apontam para uma queda de 16,5% em 2026, conforme noticiou nesta sexta-feira (23/10) o Valor.
O principal motivo foi a instabilidade geopolítica, que fez com que o preço das matérias-primas disparasse – num momento que já é de margens apertadas para o produtor rural.
“Tivemos um ano extremamente difícil. Temos uma máxima no setor que um ano nunca é igual ao outro, mas este foi inacreditável. O gráfico de preços parecia um eletrocardiograma”, afirmou o presidente do Sindicato das Indústrias de Adubos e Corretivos Agrícolas no Estado do Paraná (Sindiadubos-PR), Aluisio Schwartz Teixeira.
O engenheiro agrônomo Jeferson Souza, analista da Agrinvest Commodities, estimou que as entregas de fertilizantes fechem o ano de 2026 em 43,6 milhões de toneladas, o que corresponderia a uma queda de 11%. “Mas as projeções são atualizadas a cada mês, então esse percentual ainda pode ser maior”, completou.
O analista destacou que há sinais para a retomada do mercado a partir de 2027, com novas demandas que apresentam potencial para aquecer o setor de fertilizantes.
“Temos um cenário de incertezas no curto prazo, mas há vetores claros de crescimento para os próximos anos. O volume de milho destinado à produção de etanol tem uma perspectiva excelente, assim como a expansão de culturas alternativas, como o sorgo, e o fortalecimento do ciclo da soja”, afirmou Souza (Globo Rural, 23/10/26)










