Por Vinicius Torres Freire
- Com base em referências internacionais, Petrobras teria de fazer reajuste de mais de 30%
- Segundo gente do setor, haveria combustível até meados de maio, mesmo sem importação extra
Há boatos, alarmismos e mentiras a respeito do risco de faltar diesel no Brasil. Foi assim também na alta do petróleo nos meses seguintes ao do início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, em 2022.
A diferença agora é que há restrição muito grande de oferta de petróleo e derivados —em países da Ásia, há medidas drásticas de redução de consumo. A semelhança com o problema de 2022 é o preço do diesel no Brasil, que precisa de reajuste bastante para atenuar a ameaça de escassez. No limite, aumento de 30%. Improvável.
O Brasil importa uns 25% do diesel que consome. Empresa privada não vai importar mais combustível para vender com perda. Se o preço da Petrobras continuar como está, perdem dinheiro; se reajustam, podem perder mercado. A situação não é lá de preto no branco, importa ou não importa. Mas o preço baixo da Petrobras é problema.
No limite, a Petrobras pode importar o que falta e vender diesel com perda. Seria tabelamento, na prática, mesmo que provisório. Seria também dano para a economia e o crédito da empresa; talvez seja rolo legal (a intervenção do governo na petroleira).
Gente do setor diz que o país importou diesel bastante para março e parte de abril. Haveria de resto estoque para uns 25 dias. Esses dados não são públicos ou verificáveis de modo independente.
No limite extremo da avacalhação, pode faltar diesel. Difícil acreditar que governo, Petrobras ou Agência Nacional do Petróleo permitam esse desastre, se por mais não fosse porque seria também um desastre eleitoral. O governo Lula já subsidia o diesel e quer que os estados também o façam, a fim de atenuar reajustes da Petrobras. No mais, dá prensa em distribuidoras, em parte sinal de desespero.
Reajuste também é problema eleitoral. De imediato, caminhoneiros e seus amigos político-empresariais podem causar tumulto, embora estejam menos organizados do que no caminhonaço de 2018. O agro, muito vocal, teme mais custo e abastecimento incerto. Parte da carestia do diesel pode chegar a alimentos.
Um preço dos EUA que serve de referência para o custo do diesel no Brasil aumentou 38,6% de 23 de fevereiro para 16 de março (Gulf Coast, Ultra Low Sulfur). Nas bombas americanas, o preço médio do diesel havia aumentado 38,7% até esta quinta (19), em relação à média de fevereiro.
Segundo contas da CBIE, consultoria de energia, e da Abicom, associação dos importadores de combustível, a diferença entre o preço médio do diesel no Brasil e uma referência internacional está entre R$ 2 e R$ 2,3. Segundo a Petrobras o litro do diesel estava custando em média R$ 6,89 no Brasil, na semana passada, cálculo feito também com base na coleta de preços da ANP de 8 a 14 de março. Para que o preço médio chegue perto daquele valor de paridade internacional, pois, seria necessário reajuste de uns 30%.
Na prática, o preço de referência americano pode ter mais ou menos peso, a depender de onde o Brasil importa diesel (e do custo de frete e seguros de navios que vêm desses lugares). No ano passado, 47% do diesel importado veio da Rússia, assim como neste janeiro, dado mais recente; 33% vieram dos EUA. Diferenças de preços e risco político fazem essa proporção variar.
Em última instância, tudo depende da duração da guerra, do tamanho da destruição da capacidade de produção e da reação dos americanos ao preço da gasolina, o que pode levar Donald Trump a tomar atitude. Por enquanto, a cada dia sem reajuste, o risco para o Brasil aumenta (Folha, 20/3/26)








