As reuniões entre representantes de credores e a Raízen, empresa controlada pela Cosan e pela Shell, tomam ritmo acelerado e intenso a partir de hoje, 27, na busca por um plano bem desenhado de recuperação extrajudicial até quarta-feira, 3, apurou a Coluna. O prazo leva em conta o tempo necessário para que o plano possa ser depois analisado pelos credores, dentro de seus comitês de crédito, e esteja escrito e aprovado para ser homologado pela Justiça no dia 9, como deseja a companhia.
As discussões partem da proposta apresentada pela Shell e, com exceção dos detentores de títulos de dívida externa (bondholders), bancos e os credores locais estão alinhados. Os detentores de debêntures e de certificados de recebíveis do agronegócio (CRA) entraram recentemente nas negociações, após bondholders saírem da mesa há mais de uma semana. O grupo, entretanto, já voltou às tratativas que vão até a próxima semana.
Já não se conta mais com os R$ 500 milhões que seriam aportados por Rubens Ometto, sócio fundador da Cosan. Dessa forma, permanece a previsão de injeção imediata pela Shell de R$ 3,5 bilhões na Raízen.
Bancos abriram mão de disputa
Permanece também a proposta de conversão de 45% da dívida de R$ 65 bilhões em ações. Essa conversão foi contestada inicialmente pelos credores bancários, mas eles resolveram abrir mão dessa disputa. Também, segundo o que foi apresentado pela Shell, a dívida remanescente ou não convertida seria paga com juro entre 7% e 7,5% ao ano.
“Não morremos de amor por isso”, disse um dos credores bancários em condição de anonimato. No entanto, acrescentou outra fonte, “a realidade se impôs” e já é claro que uma recuperação judicial traria distribuição de valor muito grande e colocaria em risco o potencial de recuperação dos créditos.
Embora a maior parte das dívidas da Raízen seja concursal, ou seja, sem garantias e passível de ser tratada no plano de recuperação extrajudicial, uma parcela tem garantia e pode ser cobrada fora do processo. Grande parte dessas garantias são Cédulas do Produtor Rural (CPR) e por adiantamentos de contratos de câmbio (ACC).
A Raízen ficou blindada de cobranças, no entanto, ao protocolar o pedido de recuperação extrajudicial em março. Ainda assim, é importante fechar com urgência um acordo, já que há contratos de ACCs e de derivativos atrasados e que precisam ser honrados. “Essa é a maior urgência financeira da Raízen”, disse uma fonte.
De volta à mesa
Os bondholders resistiram às condições apresentadas pela companhia, com intenção de manter uma fatia menor de conversão e garantir a perspectiva de recuperação maior de seus créditos. Eles chegaram a discutir um empréstimo de cerca de US$ 2,5 bilhões para a empresa, a fim de elevar a injeção imediata de capital na Raízen. Mas a ideia não foi adiante. “Os detentores de títulos de dívida buscavam condições comerciais inviáveis para a situação atual da companhia e que poderiam trazer risco ao passivo no longo prazo”, disseram duas fontes.
Depois de pressionarem por condições melhores do que as apresentadas pela Shell, esses credores voltaram nesta semana às conversas, que ainda carecem de acertos nos detalhes. Mesmo durante o período mais duro das negociações, uma coisa era certa: uma Recuperação Judicial seria o pior caminho para todos. Assim, o prazo do dia 9 de junho sempre esteve na conta dos credores e funcionou até o momento em favor da Shell que, ao final do processo, deve seguir sozinha como controladora da Raízen, com uma dívida menor para consolidar em seu balanço.
A Shell reiterou que “apoia a decisão da equipe de gestão da Raízen de entrar com um pedido de recuperação extrajudicial em comum acordo com os credores, visando uma solução negociada e que funcione para todas as partes” e “que continuará trabalhando em estreita colaboração com a equipe de liderança da Raízen e credores no intuito de assegurar o futuro de longo prazo do negócio”. Procuradas, Cosan e Raízen não comentaram.
Comunicado ao mercado
Na noite desta quarta-feira, porém, a Raízen informou, por meio de comunicado ao mercado, que passou a disponibilizar, em seu site de relações com investidores, materiais apresentados a credores financeiros no contexto de sua reestruturação financeira e do plano de recuperação extrajudicial. Segundo a companhia, os documentos haviam sido compartilhados com grupos de credores quirografários com os quais negocia os principais termos do plano e agora são divulgados para “garantir transparência e igualdade de acesso” às informações.
Nos documentos, a Raízen detalha o desenho preliminar da operação de reestruturação, ainda sujeita a negociação e sem contratos definitivos assinados. O material informa que a empresa contabilizava uma dívida total de R$ 75,3 bilhões em março de 2026 e confirma que R$ 65,4 bilhões estão sujeitos ao processo de recuperação extrajudicial. Os bonds em dólar representam a maior parcela do endividamento, somando R$ 27,2 bilhões, seguidos por financiamentos de pré-pagamento de exportação, com R$ 11,9 bilhões.
O documento confirma a proposta de conversão de 45% da dívida reestruturada em ações, ao preço de R$ 0,25 por papel. Cita também a troca de 55% do passivo por novos instrumentos de dívida de longo prazo. A operação inclui ainda um aporte de R$ 3,5 bilhões da Shell e potencial injeção adicional de R$ 500 milhões por veículo ligado à Aguassanta Investimentos, family office de Rubens Ometto, dono da Cosan. Segundo apurou a Coluna do Broadcast, contudo, os credores já não contam mais com esse aporte.
Ainda conforme a empresa, os credores poderão optar por receber os novos instrumentos na mesma moeda de seus créditos atuais, incluindo real, dólar e potencialmente euro. Os novos papéis teriam vencimentos entre 2032 e 2035, remuneração atrelada ao CDI ou juros em dólar e euro, além de garantias sobre ativos específicos da companhia. O plano contempla também alternativas mais agressivas de desconto para credores que optarem por recebimentos em condições diferenciadas.
Reorganização societária
A Raízen propõe ainda uma reorganização societária, com separação entre os negócios de energia e distribuição de combustíveis, além de um programa de venda de ativos. A empresa já anunciou a venda de seis usinas e negocia desinvestimentos adicionais envolvendo ativos com capacidade de moagem entre 10 milhões e 15 milhões de toneladas.
O plano prevê a separação formal das operações entre Raízen Energia e Raízen Combustíveis após a conclusão da reestruturação. Os acordos anunciados até agora somam cerca de R$ 4 bilhões. A companhia confirmou o avanço da alienação de seus negócios na Argentina
O material mostra que os credores passariam a ter forte influência sobre a governança da empresa. Após a conclusão da reestruturação, os credores indicariam quatro dos sete membros do conselho de administração, incluindo o presidente do colegiado. A proposta prevê a manutenção da atual diretoria durante a implementação do plano, sob supervisão de representantes dos credores.
Visão positiva
Apesar da crise financeira, a Raízen sustenta, na apresentação, uma visão positiva para seus mercados de atuação no longo prazo. Destaca crescimento esperado da demanda global por etanol e açúcar, defendendo que o Brasil está estrategicamente posicionado para suprir déficits globais de oferta.
Afirma também ter avançado em eficiência operacional. Segundo os dados apresentados, o Ebitda (resultado operacional) normalizado por metro cúbico cresceu 35% na comparação anual, enquanto as despesas administrativas por metro cúbico recuaram 25%, refletindo ganhos operacionais, logísticos e comerciais.
Os documentos ainda detalham contingências tributárias de R$ 24,6 bilhões classificadas como possíveis, além de litígios totais de R$ 28,7 bilhões envolvendo questões tributárias, cíveis, trabalhistas e ambientais. Parte relevante dessas contingências poderá ser reembolsada por Shell e Cosan, conforme acordos firmados na criação da Raízen em 2011.
Segundo o cronograma preliminar apresentado aos credores, o término da reestruturação está previsto para ocorrer até março de 2027, enquanto a segregação dos negócios deve ser concluída até dezembro do mesmo ano (Estadão, 28/5/26)









