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A nova geopolítica agrícola já começou

Por Renata Piazzon

Brasil precisa de capital paciente, tecnologia e mercados sofisticados para destravar uma bioeconomia que continua aquém de seu potencial.

Voltei recentemente de uma missão à China com uma percepção difícil de ignorar: a próxima fronteira da agricultura global não será definida apenas no laboratório, nem apenas no campo, mas na integração entre ciência, tecnologia de ponta e produção agrícola em larga escala. Essa transformação já está em curso. A pergunta, agora, é como transformar a inteligência artificial em vantagem econômica e climática para o Brasil, sem deixar os produtores de pequenas propriedades de fora dessa revolução.

A China entendeu antes de quase todo mundo que segurança climática e segurança alimentar fazem parte da mesma estratégia nacional. O recém-publicado 15º Plano Quinquenal coloca tecnologias verdes, biotecnologia, autossuficiência na produção de sementes estratégicas e liderança em energia limpa entre as prioridades até 2030. As metas de neutralidade de carbono até 2060 e de atingir o pico de emissões antes do fim desta década deixaram de ser apenas objetivos diplomáticos e passaram a orientar a política industrial chinesa.

Essa diretriz ajuda a explicar a velocidade com que a China vem construindo empresas e cadeias produtivas em setores considerados estratégicos. Bancos e fundos estatais chineses operam em horizontes de dez ou vinte anos, uma escala de planejamento ainda rara no Brasil. Foi assim que a BYD, fundada em 1995, se transformou em uma das maiores fabricantes de veículos elétricos do mundo. Agora, o mesmo raciocínio começa a ser aplicado à agricultura.

A manufatura agroindustrial chinesa está na vanguarda no uso de tecnologia de ponta. Drones, sensores, satélites e modelos preditivos operam como infraestrutura produtiva. Mais importante do que os equipamentos, porém, é a capacidade de transformar dados de clima, solo, produção e consumo em decisões quase em tempo real. Num contexto de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, essa velocidade de aprendizado passa a ser vantagem competitiva.

No Brasil, o maior impacto dessa revolução pode ocorrer justamente entre os pequenos produtores. Responsáveis por cerca de 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, eles ainda operam, em larga medida, sem acesso adequado à assistência técnica, previsão climática localizada, rastreabilidade ou inteligência de mercado.

Nesse contexto, a inteligência artificial pode representar mais do que um ganho de eficiência: pode se tornar uma ferramenta de democratização tecnológica no campo, ampliando o acesso à informação, e acelerar a tomada de decisão no campo. Modelos treinados em condições agronômicas brasileiras teriam potencial para colocar a assistência técnica rural em uma escala inédita, com orientação personalizada pelo celular, recomendações adaptadas ao bioma e ao calendário agrícola local, alertas climáticos em tempo real, monitoramento de pragas e apoio à comercialização.

As tecnologias já estão disponíveis. O desafio é conectá-las a financiamento, política pública e infraestrutura de dados. A China construiu parte importante desse ecossistema. O Brasil, por sua vez, possui ativos únicos: biodiversidade, ciência tropical avançada, diversidade de sistemas produtivos e uma rede histórica de extensão rural. Mas a convergência dessas capacidades não acontecerá por inércia. Exigirá cooperação deliberada.

É justamente aí que existe uma oportunidade estratégica para o Brasil. A China busca soluções para segurança alimentar, rastreabilidade de cadeias, redução de risco climático e acesso a ingredientes naturais. O Brasil precisa de capital paciente, tecnologia e mercados sofisticados para destravar uma bioeconomia que continua aquém de seu potencial.

O problema é que ainda transformamos pouco dessa ambição em projetos estruturados, com governança, métricas, previsibilidade regulatória e capacidade de absorver investimento de longo prazo. E talvez isso aconteça porque ainda pensamos nossa relação com a China muito mais pela lógica comercial do que pela lógica estratégica.

Vale distinguir cooperação de exportação. Exportar é algo que o Brasil já faz – e faz bem. A China é nosso principal parceiro comercial desde 2009 e concentra parcela expressiva das exportações brasileiras. Cooperação é outra coisa. Envolve desenvolvimento conjunto de soluções, formação compartilhada de pesquisadores, construção de padrões regulatórios e alianças tecnológicas de longo prazo.

Esse tipo de relação sobrevive a trocas de governo porque é sustentado por instituições, conhecimento e interesses estratégicos duradouros. Os chineses operam em horizonte de décadas. Nós ainda operamos, muitas vezes, no horizonte de um mandato. E esse descompasso cobra um preço crescente.

A revolução tecnológica no campo já começou e vai redefinir quem produz, quem captura valor e quem estabelece as regras das cadeias agrícolas globais. O Brasil pode entrar nessa nova economia apenas como fornecedor cada vez mais sofisticado de matéria-prima. Ou pode se tornar parceiro estratégico de uma agenda que combina floresta em pé, agricultura familiar produtiva, inovação digital e segurança climática.

Em um mundo em que clima, alimento e tecnologia passam a integrar a mesma disputa geopolítica, tamanha ambição parece necessária (Renata Piazzon é diretora-geral do Instituto Arapyaú e representante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável (CDESS); Estadão, 22/5/26)

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