Por Claudio Adilson Gonçalez
Os custos de manter juros elevados por tempo prolongado tendem a se espalhar por toda a economia.
Este artigo não pretende criticar a condução, até aqui, da política monetária pelo Banco Central (BC). O objetivo é destacar custos e riscos, frequentemente negligenciados, da manutenção do juro básico muito acima da taxa real neutra por um período excessivamente prolongado. Já tratei neste espaço dos impactos sobre o endividamento público. Aqui, o foco recai sobre a deterioração do crédito ao setor privado.
Mesmo o setor agropecuário — que vem registrando safras recordes e expressivos ganhos de produtividade — enfrenta severas restrições de liquidez e dificuldades para honrar suas dívidas. Segundo dados combinados do BC e da Serasa Experian, estima-se que a inadimplência do setor no segmento de recursos livres tenha saltado de menos de 1%, em 2023, para patamares superiores a 10% ao final do primeiro semestre de 2025.
Esse movimento reflete uma combinação de fatores, como custos financeiros elevados, queda das cotações internacionais de commodities e maior seletividade dos bancos na concessão de crédito. Ainda assim, o aumento dos juros é o elemento central. Como em outros setores, muitos produtores rurais tomaram crédito indexado ao CDI, que acompanhou de perto as elevações da Selic.
O problema, porém, não se restringe à agropecuária. Segundo a Serasa, o número de empresas inadimplentes e com crédito negativado subiu de 7 milhões, em outubro de 2024, para 8,7 milhões, em novembro de 2025, totalizando R$ 204,8 bilhões em dívidas. A maior parte corresponde a pequenas e médias empresas, mais vulneráveis à desaceleração econômica, mas companhias de grande porte — antes bem avaliadas pelas agências de rating — também passaram a enfrentar dificuldades.
Como observa Camila Abdelmalack, economista da Serasa Experian, fatores macroeconômicos têm pressionado o endividamento corporativo: “A desaceleração da concessão de crédito limita a capacidade das empresas de renegociar dívidas e reorganizar obrigações financeiras, enquanto o esfriamento da atividade reduz a geração de receita.”
A deterioração do crédito alcança também as famílias. Segundo o BC, em outubro, a taxa de endividamento — saldo da dívida em proporção da renda anual — atingiu 49,3%, próxima do pico histórico de 49,9%, registrado em julho de 2022. Já o comprometimento da renda mensal com o pagamento de dívidas alcançou 29,4%, o maior nível da série iniciada em 2005.
No Brasil, a sintonia fina da política monetária é particularmente desafiadora: elevado endividamento público, canais de transmissão parcialmente obstruídos, expansionismo fiscal persistente e uma meta de inflação ambiciosa, de 3%. Nesse contexto, os custos de manter juros excessivamente elevados por tempo prolongado tendem a se espalhar por toda a economia — do agro às famílias (Claudio Adilson Gonçalez é economista e diretor-presidente da MCM Consultores, foi consultor do Banco Mundial, subsecretário do Tesouro Nacional e chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda (Estadão, 5/1/25)









