- Joint venture entre Cosan e Shell enfrenta deterioração financeira e contrata assessores para avaliar alternativas
- Especialistas recomendam cautela para quem detém papéis da companhia em carteira
Investidores têm fugido dos papéis da Raízen, joint venture entre Cosan e Shell, em meio a rumores sobre um plano de renegociação da dívida da produtora de etanol e uma das principais distribuidoras de combustíveis do Brasil.
Essa fuga aparece, principalmente, nos títulos de dívida da companhia, que estão derretendo no mercado secundário. A debênture com vencimento para 2029, por exemplo, enfrentou um tombo de 40% no preço de venda e uma disparada de 150% nas taxas de retorno nesta semana –movimento que ilustra como os operadores estão se desfazendo dos ativos apesar do forte deságio.
Em termos práticos, quanto menor o preço do título, maior a taxa de retorno (yield, no jargão), uma vez que os investidores exigem maiores prêmios de risco para investir no papel.
O movimento também se refletiu na abertura de spreads –isto é, a diferença de rentabilidade em relação a um título público usado como referência.
A debênture RAIZ14, atrelada ao CDI (certificado de depósito interbancário), chegou a marcar diferença de retorno de 40,85 pontos porcentuais.
A escalada é “fruto da preocupação com a capacidade da empresa em se manter saudável no médio e longo prazo”, diz Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos.
O mesmo aconteceu com os CRAs (certificados de recebíveis do agronegócio). Segundo dados da Anbima, o contrato com vencimento em 2032 está sendo vendido com um desconto de até 63% no preço nesta quinta-feira (11). As ações na B3 também não passaram incólumes. No acumulado dos últimos seis meses, os papéis caíram 43%, cotados a R$ 0,68 neste pregão.
A companhia, uma das maiores produtoras globais de açúcar e etanol, enfrenta forte deterioração financeira. No dado mais recente, de setembro, a dívida líquida somava R$ 53,4 bilhões, um montante cinco vezes maior do que a operação do porte da Raízen suporta, segundo analistas ouvidos pela Folha. A dívida bruta era de R$ 68,6 bilhões.
Uma combinação de fatores culminou na atual encruzilhada. Perdas de safras na cana-de-açúcar, problemas na distribuição de combustíveis, que só recentemente têm melhorado, e a pressão dos juros altos, que ajudam a turbinar os passivos. Também pesaram os altos investimentos em etanol de segunda geração, que ainda não deram o retorno esperado.
O mercado aguardava um acordo entre a Cosan e a Shell para uma solução –estimativas apontam que a Raízen precisa de pelo menos R$ 20 bilhões em capital novo. Mas as controladoras seguiram relutantes em injetar mais capital na empresa, levantando a bola de que uma reestruturação de dívida, que imporia perdas relevantes aos credores, seria o caminho mais provável.
Na segunda-feira, os rumores se intensificaram. A Raízen informou em fato relevante que havia escolhido a Rothschild & Co como assessora financeira e os escritórios Pinheiro Neto Advogados e Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP como consultores legais para avaliar alternativas de reestruturação financeira, incluindo renegociação de dívidas e venda de ativos.
O anúncio fez com que os papéis da companhia amargassem perdas –e não só eles. As principais agências de classificação de risco do mundo rebaixaram a nota da Raízen para grau especulativo, isto é, aquele que indica maior probabilidade de calote.
A S&P rebaixou a classificação da empresa de BBB-, nível atribuído a companhias com capacidade adequada de honrar seus compromissos, para CCC+, categoria associada a operações de risco elevado. A perspectiva também foi alterada para negativa, o que significa que a nota pode piorar ainda mais.
A Moody’s reduziu o rating de Ba1 –faixa que reúne empresas capazes de cumprir obrigações ao acessar o mercado, ainda que a custos mais altos– para Caa1, categoria que engloba negócios com dificuldades para honrar compromissos financeiros. A perspectiva também é negativa.
A Fitch promoveu dois rebaixamentos na segunda-feira –um pela manhã e outro após o anúncio da contratação dos assessores. Para a agência, há agora risco significativo de inadimplência.
“Historicamente, empresas no Brasil que fazem esse tipo de anúncio [contratação de assessoria financeira] acabam entrando em recuperação judicial ou fazendo uma reestruturação não tão amigável aos credores”, diz Flávia Bedran, diretora da S&P, citando Americanas e Braskem como precedentes similares.
Ela afirma que o rebaixamento vem embebido, também, em uma mudança de postura da Raízen quanto à transparência sobre os próximos passos. “Da última vez em que tivemos essas vendas relevantes de títulos de dívida, entre setembro e outubro, a empresa foi a público anunciar que não estava considerando nenhum tipo de reestruturação de dívida. Dessa vez, o tombo foi ainda pior, e a empresa ficou em silêncio.”
Os próximos passos vão depender de novos anúncios da empresa, diz Bedran. A Raízen divulga o balanço corporativo do quarto trimestre de 2025 nesta quinta, após o fechamento do mercado. Mas, mais do que os dados em si, os investidores esperam sinalizações sobre o futuro.
Enquanto isso, a recomendação é que o investidor adote cautela antes de tomar qualquer decisão sobre os papéis da Raízen que detém em carteira. “O cuidado é que, se a venda de fato for necessária, será com perda de rentabilidade contratada ou potencial prejuízo ao investidor”, diz Cleiton Souza, da Private Investimentos.
“Ele deve avaliar a sua necessidade de liquidez e o tamanho da sua exposição aos papéis da Raízen para decidir se é o momento. Vale lembrar que há uma dúvida sobre a capacidade de geração de caixa no médio prazo, e não um calote anunciado.”
Ele lembra que o risco para vender um título da empresa é potencializado pelo vencimento. Quanto mais longo for o contrato, maior a sensibilidade no preço de venda.
Caso a empresa de fato entre em um processo de reestruturação de dívida, o especialista e planejador financeiro diz que ainda é cedo para dizer como os credores seriam afetados.
Outra possibilidade é que controladores e acionistas injetem capital na empresa, o que atenuaria eventuais perdas dos credores.
Em caso de uma recuperação judicial, os credores com garantias reais –como hipoteca e penhora– têm prioridade na fila de recebimento. Depois, vêm os credores quirografários –os que não têm garantia real e não possuem nenhum bem vinculado à dívida. Os acionistas ficam no fim da fila.
Vale lembrar que CRAs e debêntures não são cobertos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
A assessoria de imprensa da Raízen disse que a empresa está no período de silêncio que antecede a divulgação de resultados (Folha, 13/2/26)









