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Desastre climático e tecnologia mudam índice da Fipe que mede inflação

  • Pesquisa de custo familiar recoloca alimentação no topo dos gastos do consumidor
  • Jornal e revista saem da pesquisa; tatuagem, areia para animais e aplicativo entram

Os tempos mudam. Condições climáticas, avanços tecnológicos, pandemia, novos hábitos de consumo, renda e emprego interferem na taxa de inflação. Isso leva as instituições que apuram inflação a uma atualização da estrutura na ponderação dos pesos de seus índices.

É o que a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) acaba de fazer. De abril de 2023 a março de 2025, ela acompanhou custos e novos hábitos de consumo de 1.813 famílias na cidade de São Paulo. Por isso, o novo índice da entidade, que acompanha 465 produtos, vem com peso modificado desde janeiro deste ano.

A POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) atual entra em vigor 90 anos após a primeira desse índice, que mede a inflação no município de São Paulo e, à época, era administrado pela prefeitura municipal. As POFs são revistas ciclicamente pelas instituições, e sempre alguns itens saem da lista e outros entram.

A Fipe retirou 49 itens da POF anterior, que tinha sido feita de 2011 a 2013, e acrescentou 51 na nova. Entre os que saíram estão DVD, CD, cartuchos para impressora, telefone fixo, cartão telefônico, máquina fotográfica, jornal e revista. Esses produtos, com o avanço da tecnologia ou novas opções para o consumidor, deixaram ou passaram a pesar menos no custo médio familiar.

O índice se adapta às novas exigências do mercado e passa a acompanhar, a partir de agora, custos com streaming de vídeo e de áudio, transporte por aplicativos e acessórios para telefone celular. Entre os produtos incluídos, vários alimentos, como açaí, pão de queijo, água de coco, tilápia, café em cápsula, farinha e tapioca, além de energéticos. A inflação passa a acompanhar também os custos de areia e tapete para animais, tatuagem, Air Fryer e frigideiras.

Alguns produtos ganham peso no índice, como condomínio, aluguel, combo (TV, internet e telefone), gasolina e seguro de veículo. Entre os que perdem estão energia elétrica, notebook, TV a cabo e por satélite, etanol, academia de ginástica e salão de beleza.

Os alimentos voltam a ser os principais itens de peso no bolso do consumidor, desbancando os de habitação. De cada R$ 100 que o paulistano dentro da faixa de pesquisa da Fipe gasta mensalmente, R$ 29,09 são com alimentos, e R$ 28,52, com habitação. Os custos com saúde e despesas pessoais aumentaram, e os com vestuário e educação diminuíram.

A nova POF da Fipe ocorreu em um período pós-pandemia e ainda sob efeitos de crises climáticas e de disputas geopolíticas, o que elevou os preços de vários alimentos. Café, óleo de soja, arroz e feijão pesam mais no índice agora. As carnes bovina, suína e de frango, com a maior oferta interna, pesam menos.

Os alimentos tiveram sensíveis mudanças de comportamento nos últimos 90 anos. Em 1936, de cada R$ 100 que o consumidor gastava, R$ 56,22 eram com alimentos. Houve uma queda contínua para até R$ 22,73 na POF de 1998. Na sequência, os alimentos voltaram a pesar mais no bolso do consumidor, chegando aos R$ 29,09 atuais.

Os alimentos industrializados, que representavam R$ 31,32 há 90 anos, caíram para até R$ 9,41 na POF iniciada em 2011, mas voltaram a subir para R$ 12,59 na atual.

Os planos de saúde, incorporados no índice na POF de 1990, pesavam R$ 0,59 de cada R$ 100 gastos pelo paulistano à época. Subiram para R$ 3,45, em 2009, e recuaram para R$ 2,11 atualmente.

A amostra da POF da Fipe levou em consideração uma renda média familiar de R$ 6.904, dividida em três faixas. A primeira para os que têm renda inferior a um salário mínimo; a segunda para os que ganham de 1 a 10, e a terceira para os que ganham acima de 10. O salário mínimo teve variação no período da pesquisa. A instituição estima as variações do custo de vida das famílias com renda familiar de 1 a 10 salários mínimos.

Em média, as famílias têm 2,61 pessoas; 75% apresentam renda inferior a seis salários mínimos; 54,3% são do sexo feminino; 45,7% dos domicílios são comandados por mulheres, e 41,9% dos responsáveis pelos domicílios têm de 30 a 49 anos.

Quanto à educação, 2,5% dos responsáveis não têm escolaridade; 9,7% têm ensino fundamental completo; 30,4%, médio completo, e 23%, superior completo.

A Fipe divulgou nesta terça-feira (3) a inflação de janeiro. A taxa dos alimentos recuou para 0,11% no mês passado, acumulando 1,72% em 12 meses. Café, óleo de soja e açúcar estiveram entre as quedas no mês, enquanto a carne bovina subiu, um comportamento inverso ao das carnes suína e de frango. A taxa geral de inflação foi de 0,21% em janeiro, acumulando 3,8% em 12 meses (Folha, 4/2/26)

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