Para especialista em agronegócios, combinação para fazer a negociação com os EUA andar seria uma mesa de negociação para valer, com vários temas, e usar a Lei da Reciprocidade como forma de pressão.
Entrevista com Marcos Jank, professor sênior do Insper:
Após o tarifaço anunciado por Donald Trump a produtos brasileiros, ganhou força a discussão sobre qual seria a resposta ideal do governo brasileiro. E a questão da retaliação voltou à tona. Embora mesmo a maior parte dos setores afetados defenda que a solução é continuar negociando – e essa seja até a posição oficial do governo -, há uma corrente que acredita ser necessário retribuir na mesma moeda, taxando produtos americanos.
E uma outra ideia, defendida por alguns especialistas e economistas, sugere até mesmo elevar o imposto de exportação de alguns produtos brasileiros importantes para os EUA, como café, carne ou suco de laranja, como uma forma de elevar os preços no mercado americano e forçar uma negociação.
Essa forma de tentar forçar o governo Trump a sentar-se à mesa, porém, seria equivocada e arriscada, na avaliação do professor sênior do Insper e um dos principais especialistas em agronegócio global, Marcos Jank.
“Seria um tiro no pé”, afirmou Jank ao Estadão. Entre os argumentos para refutar essa proposta, o especialista aponta que o efeito do encarecimento dos itens exportados para os EUA por conta do imposto de exportação não é líquido e certo. Isso por causa da baixa participação das exportações brasileiras nas importações americanas – elas representam apenas cerca de 1% do que os EUA importam.
Além disso, a estratégia de tentar encarecer as exportações brasileiras de produtos importantes para os EUA pode ser neutralizada pela entrada de outros países fornecedores. Por isso, Jank ressalta que o ônus da retaliação poderá recair sobre os próprios exportadores brasileiros, que poderão perder mercado.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Após o tarifaço americano, uma das grandes discussões passou a ser como responder a isso, se o Brasil deveria ou não retaliar os EUA. Qual a sua posição sobre isso?
Quando falo que não é para retaliar, às vezes dá a impressão que não é para fazer nada em relação ao tarifaço. Acho que temos de agir e não se trata de uma questão binária, tipo reage ou então aceita. A gente não deve aceitar, assim como mais de 80 países que estão sendo atingidos por investigações dos Estados Unidos (não aceitaram) e nenhum retaliou.
Tem aqueles que sentaram à mesa e negociaram reduções tarifárias e mesmo outros temas não comerciais. Porque os Estados Unidos hoje colocam sobre a mesa tudo, não é só o comércio. Tem países que foram para a mesa negociar, fizeram concessões e também conseguiram compensações. E há aqueles que ainda estão na mesa.
A China talvez seja o maior caso. Desde o primeiro momento ela reagiu colocando uma tarifa semelhante, mas ela não retaliou, ela continuou negociando. E a negociação não vai terminar tão cedo.
Como reagir ao tarifaço, então?
O primeiro caminho seria uma negociação ampla, permanente e proativa, adequada a esse novo mundo. Não é uma negociação como antes, que levava anos. É muito mais rápida. Você tem de estar disposto a sentar à mesa e conversar sobre temas de forma permanente, mantendo essa mesa aquecida, porque o Trump vai mudando de posição e de ideia. Ele está sempre criando fatos novos.
Por quê?
Porque as instituições bilaterais que existiam estão todas em frangalhos. Ninguém está levando a sério. Falar “eu vou para a OMC” (Organização Mundial do Comércio), como antes, ninguém mais leva a sério. Porque não vai acontecer nada.
E os outros caminhos?
O segundo caminho é o da Lei da Reciprocidade que o Brasil fez. Foi muito importante. Quer dizer, dentro dos ritos, nós vamos fazer consultas, vamos conversar, abrir o procedimento administrativo previsto na lei brasileira, fazer as consultas diplomáticas, criar comitês. Isso é um processo que leva meses. Você pode, dentro desse processo, colocar determinadas concessões que vão levar os Estados Unidos para a mesa (de negociação). Diria que as mais importantes ameaças que realmente viriam para a mesa seriam colocar em questão serviços e propriedade intelectual.
Por quê?
Porque estamos falando de setores nos quais os Estados Unidos são muito fortes, exportam muito para o Brasil e têm uma presença muito grande. E propriedade intelectual não tenho a menor dúvida (que é importante). Lembro, inclusive, que a gente tem um precedente nessa área de reciprocidade que foi o contencioso do algodão na OMC. Na OMC nós ganhamos o painel, foi para o órgão de apelação e foi decidido que os Estados Unidos tinham de retirar os subsídios aos seus cotonicultores. Eles não o fizeram.
Nós acionamos o sistema que eles chamavam de sistema de solução de controvérsias e ganhamos o direito de fazer uma retaliação. E aí, quando ameaçamos que a retaliação seria em propriedade intelectual, em patente, os americanos vieram para a mesa e fizeram uma proposta. Esse processo legal está previsto no sistema multilateral de comércio e tem de passar pelo ritual da OMC.
Hoje, a Lei de Reciprocidade faz um pouco disso. Acho que esse é o caminho. Se os americanos não querem vir para a mesa, você coloca a Lei de Reciprocidade que está dentro da legislação brasileira. Porque o que nós queremos no fim é negociar. Uma espiral retaliatória não interessa a ninguém.
O que o sr. acha da ideia de taxar com um imposto de exportação produtos sensíveis para economia americana para forçar a negociação?
Acho que é uma proposta infeliz e perigosa.
Primeiro, porque nenhum país fez isso. Talvez o único país que pudesse fazer isso e que não fez foi a China. Nenhum dos acordos dentro das mais de 80 investigações e ameaças que os americanos tiveram terminaram num processo em que o próprio país taxa as suas exportações. Vejo como algo muito complicado. O Brasil não é a China. A China poderia, com o seu tamanho e com a interdependência que tem com os Estados Unidos, fazer isso. E não fez.
O nosso comércio com os Estados Unidos hoje é de US$ 40 bilhões. A maior parte dos produtos não foi atingida pelo tarifaço. E, de fato, nós estamos falando de menos de 1% do que os Estados Unidos importam. Se a gente for comparar com o PIB (Produto Interno Bruto) americano, nossas exportações representam 0,13%. Portanto, não têm nenhum impacto econômico relevante em termos do tamanho no comércio americano.
Quais são os outros pontos?
O segundo ponto, que é o mais importante, é que, com isso, pode-se estar mandando essa conta para o exportador. Quando dizem que o Brasil deveria sobretaxar de imediato as suas exportações em itens sensíveis (aos Estados Unidos), como café, suco de laranja, carne, ferro-gusa, aviões e peças de aeronaves, é apenas a citação de alguns setores que fazem parte dos produtos que ficaram isentos. A proposta é que o Brasil taxasse ou controlasse essas exportações.
Na verdade, quando um país faz uma retaliação como essa, não é garantido que ela vá, de fato, afetar o preço nos Estados Unidos e causar alguma dor lá. Pode ser que isso derrube o preço do produto aqui dentro, que o Brasil saia do mercado, mas sem causar impacto lá. Na verdade, você pode estar punindo mais o exportador do que o país de destino.
Como assim?
De repente, você coloca uma taxação na exportação e há outros países que podem suprir o mercado americano e não muda nada. Ou tem outros produtos que substituem aqueles que foram taxados. Na carne bovina, por exemplo, a gente representa só 15% das importações dos Estados Unidos e 2% do consumo. O Canadá e a Austrália têm volumes muito superiores que o Brasil. Se você coloca mais uma taxação sobre exportação aqui e já está tendo um imposto de importação lá, você inviabilizaria a nossa exportação.
Nesses últimos 120 anos, pelo menos, das relações do Brasil com os Estados Unidos, esse é o pior momento.
Seria um tiro no pé fazer isso?
Seria um tiro no pé. No suco de laranja, um produto que a gente representa 76% do consumo americano e é super importante, a gente viu nos últimos anos que, quando o preço sobe, o consumidor migra para outros sucos ou para bebidas carbonatadas. No caso do café, o Brasil tem 30% do mercado americano. Mas há café da Colômbia, da América Central. Talvez tivesse algum aumento do preço do café. Mas eu duvido que isso seja significativo a ponto de provocar uma reação dos Estados Unidos de ir para a mesa de negociação por causa do café.
Acho que a gente tem uma visão errada nesse negócio. Isto é, achar que a retaliação vai ter como consequência um impacto no preço pago pelos americanos e fazer eles virem para a mesa de negociação. Por que tem gente do governo que gosta disso? Porque isso mostra uma certa altivez do Brasil na negociação. Vamos lembrar que os Estados Unidos e o Brasil não conversaram desde que o Trump entrou.
Nesses últimos 120 anos, pelo menos, das relações do Brasil com os Estados Unidos, esse é o pior momento. Estou repetindo o que o embaixador (Rubens) Barbosa falou. Esse é o pior momento das relações Brasil e Estados Unidos, é o maior embate político-ideológico entre os dois governos, tanto que o Lula (presidente Luiz Inácio Lula da Silva) falou contra os Estados Unidos mais de 60 vezes, também houve respostas do Marco Rubio (secretário de Estado dos EUA).
Foi aí que o Brasil errou ao não sentar à mesa para negociar?
Quem se sentou à mesa, vamos aqui qualificar, foi o setor privado brasileiro. Os setores ameaçados foram a Washington, fizeram dezenas de diligências, contrataram escritórios lá e tudo mais. O vice-presidente (Geraldo) Alckmin meio que tomou a representação desses setores. Agora não existe um diálogo construtivo, amplo, proativo entre os dois governos.
Foi aí que o País errou?
Não digo que o País errou. Acho que a questão político-ideológica se colocou acima dos interesses que envolviam o tarifaço. Nesse sentido, uma negociação que deveria ter sido feita de forma muito mais ampla, porque tem assuntos que interessam, de fato, aos Estados Unidos. Conforme eu acabei de mencionar, serviços, propriedade intelectual, minerais críticos. Entre eles, o pessoal cita o caso lá do nióbio, que os Estados Unidos dependem totalmente do Brasil, aeronaves. Mas também a questão, talvez a mais importante, é a das terras raras. Acrescentaria na área do agro outros assuntos.
Vejo que o Brasil e os Estados Unidos poderiam ter uma ótima conversa sobre a bioenergia, porque são os dois maiores produtores de biocombustíveis do mundo, com interesses não só de aumentar o uso dentro do país, mas de exportar para outros países. Quando se fala do etanol, um dos assuntos é a questão da tarifa do etanol, que a do Brasil hoje é 18% e dos Estados Unidos é 2%.
Isso nunca deveria ser um tema de conflito entre o Brasil e os Estados Unidos, deveria ser um tema de convergência, não só na relação bilateral, mas convergência em relação a uma estratégia internacional. Biotecnologia é outro tema que os dois países são muito fortes. Existe uma agenda positiva nos Estados Unidos, que vinha sendo trabalhada há décadas.
E agora, desde que o Trump entrou pela segunda vez, e desde que o Lula reagiu a essa entrada, e politizou também essas questões – e você sabe que essas questões fazem parte dos pacotes eleitorais desse ano. Desde que tudo isso foi acontecendo, a gente meio que não sentou de fato à mesa. Acho que deveria ter sentado desde o começo, com muito menos influência político-ideológica, muito mais em cima do longo histórico de cooperação das duas maiores economias das Américas.
Por que há pessoas no governo que gostariam de uma retaliação para equacionar o tarifaço?
Não só porque teria uma questão política, de mostrar que foi o primeiro país que retaliou o gigante, mas também porque tem gente no governo que acha interessante taxar o agro, por exemplo, para arrecadar mais. E o governo pensa muito em arrecadação. E um imposto sobre comércio é algo fácil de se aplicar.
A ideia de retaliar via taxação de exportações está sendo cogitada dentro do governo?
Não, eu acho que não está. Mas pode ter gente que fala, vamos retaliar até porque nós vamos ganhar com isso.
A retaliação é uma medida populista?
Acho que ela pode virar uma medida populista, porque, de um lado, aumenta a arrecadação e, do outro lado, represa o produto aqui dentro e derruba preço e inflação. Pode ser que tenha gente no governo que pense assim. Mas não estou dizendo que todo o governo pense assim. Estou dizendo que pode ter essa mistura de política, de populismo, que não pode acontecer, mas que infelizmente vem acontecendo nas relações do Brasil com os Estados Unidos.
O sr. acha que o governo poderá seguir esse caminho, de taxar as exportações?
Não acho que o governo vá caminhar para isso, não tem mais tempo. Mas eu acho que é um risco. Outra coisa importante: se o governo coloca uma taxa sobre exportação, não tira mais. O maior exemplo é a Argentina, que há alguns anos trabalhou com taxação de exportação e foi um desastre para a sua agricultura. Uma das razões pelas quais o Brasil cresceu tanto em agro foi porque a Argentina, com as suas chamadas retenciones, acabou usando esse instrumento. Alguns outros países usaram também durante a pandemia, de maneira temporária. Acho que é uma política muito equivocada e arriscada.
O sr. defende o caminho da reciprocidade para negociar com os Estados Unidos?
Acho que a combinação para fazer a negociação andar seria uma mesa de negociação para valer, com vários temas, e usar a Lei da Reciprocidade como forma de pressão. Vai demorar meses, talvez mais, mas é importante que ela esteja sobre a mesa. Não quer dizer que ela vá ser colocada nesse momento, mas ela deveria ser instaurada. Nós deveríamos iniciar o processo, mas não quer dizer que nós temos de aplicá-la de imediato. E, ao mesmo tempo, temos de buscar um conjunto de ações que são possíveis. Por exemplo, ampliar a lista de exceção. Já houve uma ampliação agora, nessa última ida do setor privado.
A China conseguiu negociar com muito mais força com os Estados Unidos porque vem diminuindo a dependência dos EUA nas suas exportações. O Brasil pode fazer isso também. O Brasil pode avançar nos acordos comerciais que está fazendo com diversos países, Canadá, Japão, Coreia. Temos de avançar nessa agenda, temos de ampliar a presença nas cadeias de valor globais, agregar valor às exportações, atrair investimentos. Enfim, tem muitas outras agendas, talvez muito mais importantes do que se falar em retaliação nesse momento.
Basicamente, vamos ampliar a negociação, vamos usar a lei brasileira da reciprocidade, como outros países têm também. Mas retaliação unilateral, taxando as exportações de produtos sensíveis aos Estados Unidos como forma de pressão, acho que é uma ideia infeliz e arriscada.
Daqui até outubro, qual o caminho que o sr. acha que será adotado pelo governo: retaliação, aplicação da lei reciprocidade ou ele ficará meio inerte, só com o setor privado tentando negociar?
Eu acho que o processo eleitoral tornará esse período mais inerte, até porque o que nós estamos falando aqui nunca teria impacto tão rápido no processo eleitoral. Não vejo mudanças daqui até outubro, mas eu acho que o governo atual, se for reeleito, vai continuar tendo conflitos com os Estados Unidos. Aí talvez essa questão da Lei da Reciprocidade seja um caminho adequado, tem gente muito séria defendendo isso. Acho que essa lei foi muito importante ter sido feita logo no começo, quando surgiram as primeiras ameaças do Trump, lá no “dia da libertação”.
A lei é importante nesse momento, porque a gente não conseguiu negociar. A gente tem de buscar é a negociação e a lei é uma forma de trazer os dois lados para a mesa. Não creio que (a negociação) vai acontecer daqui até as eleições, agora creio que será necessário no ano que vem, até porque os americanos têm um arsenal de medidas, um saco de maldades, vamos chamar assim, que pode ser aberto a qualquer momento. A gente não pode ficar parado, precisamos agir (Estadão, 2/8/26)









