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Brasil não pode ser só espectador no debate do aquecimento

Por Welber Barral

O País precisa investir na investigação científica, entender especificidades bioclimáticas e compreender causas, vulnerabilidades e impactos das mudanças sobre seu território

O verão recente no Hemisfério Norte voltou a impor números dramáticos à contabilidade humana e econômica do clima. A sucessão de ondas de calor extremo na Europa, acompanhada por milhares de mortes adicionais, incêndios florestais devastadores e seca inédita em bacias hidrográficas, reforça a percepção de que a crise climática deixou de ser uma projeção abstrata para se tornar risco sistêmico.

A explicação científica dominante aponta, com razão, para a concentração acelerada de gases de efeito estufa decorrente da queima de combustíveis fósseis, desde a Revolução Industrial.

Mas restringir a equação climática à dinâmica industrial oculta a complexidade de fenômenos estruturais e históricos longevos. Estudos sobre a história ambiental europeia – a exemplo dos grandes incêndios e variações térmicas na região de Bordeaux e na Aquitânia ao longo dos últimos séculos – demonstram que as causas da vulnerabilidade climática atual possuem raízes remotas e multifatoriais.

A mudança climática interage com padrões de uso da terra, desmatamentos ocorridos ainda na Idade Média, alterações no manejo florestal e ciclos naturais de variação solar e atividade vulcânica.

Estas análises revelam que os ecossistemas regionais acumulam passivos ambientais construídos ao longo de gerações. Trata-se de causalidade cumulativa e sistêmica, cuja compreensão exige recuo temporal e abordagem interdisciplinar.

As implicações dessa compreensão transcendem o ambiental e atingem o comércio internacional. A instabilidade climática afeta a produtividade agrícola, a disponibilidade hídrica e a segurança alimentar global. Regiões produtoras perdem safras tradicionais e deslocam fronteiras agrícolas, alterando vantagens comparativas globais.

No âmbito das cadeias globais de valor, os eventos climáticos extremos impõem custos crescentes à infraestrutura logística. A navegação comercial em artérias fluviais sofre interrupções frequentes pela redução severa do calado dos rios. O risco climático passa a integrar o cálculo de prêmios de seguro, fretes e decisões de investimento.

Paralelamente, observa-se o surgimento de uma nova arquitetura regulatória. O risco está na instrumentalização de justificativas climáticas para justificar barreiras não tarifárias. Daí a necessidade de ciência para preservar eficiência e estabilidade econômica.

No caso do Brasil, sua matriz renovável e agricultura competitiva não lhe permitem limitar-se a espectador passivo. O País precisa investir na investigação científica, entender especificidades bioclimáticas, compreender causas, vulnerabilidades e impactos das mudanças sobre seu território. Somente assim poderá defender competitividade, combater protecionismo camuflado de sustentabilidade e contribuir, de forma pragmática e soberana, para o debate global sobre o clima  (Welber Barral é conselheiro da Fiesp, presidente do IBCI e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil; Estadão, 6/8/26)

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