Confira as notícias do Agronegócio no Paraná

O Brasil testa seu poder global nos biocombustíveis

Por Pedro Côrtes

Escala, carbono e preço definem a ambição energética.

Ao afirmar, em agenda internacional, que o Brasil pode se tornar a “Arábia Saudita dos biocombustíveis”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sintetiza uma ambição que ganha importância em um momento de inflexão do sistema energético global.

A comparação não é trivial: implica não somente liderança produtiva, mas capacidade de influenciar preços — algo que, hoje, o mercado de combustíveis renováveis ainda não concede a nenhum país.

Os números ajudam a dimensionar o ponto de partida. O Brasil produz cerca de 35 bilhões de litros de etanol por ano, respondendo por algo próximo de 27% da produção global, segundo dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) e estimativas da AIE (Agênica Internacional de Energia).

No biodiesel, a produção supera 7 bilhões de litros anuais, impulsionada por mandatos domésticos.

Já o mercado de SAF (combustível sustentável de aviação) — produzido a partir do etanol — deve ultrapassar US$ 40 bilhões até 2030, com base em projeções da International Air Transport Association.

Esse crescimento não decorre apenas de mercado, mas de regulação e metas climáticas, sobretudo na Europa e na aviação internacional.

É nesse terceiro vetor que a ambição brasileira deixa de ser retórica e passa a ser estratégica. O SAF é caro, escasso e regulado — uma combinação que normalmente permite preços mais altos e maior lucro.

Na prática, não se trata de um mercado plenamente competitivo — e isso, neste caso, favorece quem consegue ofertar o combustível com menor intensidade de carbono.

Aqui emerge a diferença central em relação ao petróleo. O barril carrega um prêmio geopolítico clássico, que aparece quando riscos elevam o valor do curto prazo. Nos biocombustíveis, o vetor dominante é outro: um prêmio regulatório de carbono, definido por políticas públicas e metas de descarbonização.

Ainda assim, a conexão indireta com o petróleo é inevitável. Sempre que o Brent sobe — por conflito ou gargalos logísticos — a competitividade relativa de etanol e biodiesel melhora. Não é uma construção sofisticada; é arbitragem econômica direta.

A questão é se essa arbitragem pode evoluir para poder estrutural. E aqui o discurso começa a encontrar limites. Diferentemente do petróleo, os biocombustíveis ainda não têm um mercado global integrado, nem uma curva de preços consolidada.

O que existe hoje é um mosaico regulatório. A Europa paga mais, os Estados Unidos subsidiam, e outros mercados operam de forma fragmentada. Isso dificulta a formação de preço global e reduz a capacidade de coordenação de oferta.

O governo brasileiro tenta acelerar esse processo com políticas como o Combustível do Futuro. A estratégia amplia misturas obrigatórias e sinaliza demanda de longo prazo. Com isso, busca-se destravar investimentos que podem superar R$ 200 bilhões na próxima década.

Há um vetor importante a impulsionar a agenda dos renováveis. Biocombustíveis funcionam como amortecedor quando o petróleo sobe, mas deslocam o risco para dentro da economia. Maior uso de etanol e biodiesel implica maior exposição a preços agrícolas.

Portanto, a analogia com a Arábia Saudita é útil, mas potencialmente enganosa. O Oriente Médio construiu poder não apenas com reservas, mas com capacidade de influenciar o preço marginal do barril. O Brasil, por enquanto, influencia custo — não preço. E essa diferença é decisiva.

Se quiser de fato ocupar esse espaço, o país terá de fazer algo mais difícil do que expandir produção. Terá de ajudar a criar o próprio mercado em que pretende exercer poder. Sem isso, a ideia de “Arábia Saudita verde” não se sustenta. Com isso, deixaria de ser slogan e passaria a ser estratégia real de poder econômico (Pedro Cortês é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país; CNN, 20/4/26)

Compartilhar:
O Brasil testa seu poder global nos biocombustíveis
Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Ao usar este site você concorda com nossos Política de Proteção de Dados.

Central de Atendimento

Contato: André Bacarin

    Acesse o mapa para ver nossa localização