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De volta à estaca zero na catástrofe do clima

Por Marcelo Leite

A escritora e Nobel Annie Ernaux lavrou incontáveis frases impiedosas sobre si, seu tempo e sua gente, como a que está no livro “Os Anos”: “De tanto fazer amor com o mesmo homem, as mulheres [na faixa dos 40 em 1980] tinham a impressão de ter voltado a ser virgens”.

Consegue entender o paradoxo até mesmo quem vive a limitação de pertencer ao gênero masculino e o desgosto de presenciar o mundo em 2025, no limiar da perda total. Mesmice e falta de imaginação expulsam da consciência qualquer noção –mas não a expectativa– sobre agruras e prazeres que o sexo pode trazer.

Em situação parecida se encontram jornalistas veteranos na pauta da crise do clima. De tanto escrever sobre o mesmo assunto, têm a impressão de ter voltado a ser focas (novatos). Continuam a fazê-lo mesmo corroídos pela insegurança na própria capacidade de gerar luz, pois condenados à expectativa ingênua.

Desânimo e apatia tomam conta de quem se debruça sobre a carta divulgada por André Corrêa do Lago, diplomata escolhido para presidir a COP30 em Belém. Não por demérito do embaixador, que merece admiração por aceitar a pior missão do mundo, conduzir o fracasso da trigésima negociação sobre a questão mais importante do mundo.

Um colunista exasperado poderá lembrar o dito segundo o qual há coisas boas e coisas novas no texto apresentado. O problema é que as coisas boas (as visíveis no documento) não são novas e as coisas novas (da conjuntura nele omitida) não são boas.

A carta não economiza nas palavras certas para abordar a gravidade da emergência climática: mutirão, escolha, catástrofe, unidade, resiliência, otimismo. “Esses valores realçam nosso espírito coletivo em um século que testará a capacidade de adaptação e inovação de nossa espécie na construção de um futuro comum.”

O sentido de urgência está presente na letra do documento, ainda que não no espírito comedido (papai-e-mamãe, se poderia dizer) da diplomacia. Como bem apontaram analistas ambientalistas, o tabu dos combustíveis fósseis só mereceu menção passageira, um recalque para lá de sintomático.

Eis o que não pode ser nomeado: inexiste futuro para a questão climática sem reduzir a zero ou ao menos neutralizar, antes de 2050, a emissão de carbono pela queima de petróleo, gás natural e carvão mineral. Mas ela segue em alta, na espiral da morte que deu título ao livro de Claudio Angelo e que em 2016 parecia alarmista.

A hipérbole se mostra de todo adequada para a conjuntura internacional incendiada pelo valentão negacionista Donald Trump. É nula a chance de países ricos aceitarem investir US$ 1,3 trilhão por ano em mitigação e adaptação ao aquecimento global, numa época em que a Europa prioriza o rearmamento.

O Brasil, em que pesem as boas intenções do Itamaraty e de Marina Silva, faz mais parte do problema do que da solução. O maior projeto nacional é furar poços na foz do Amazonas, levando a Petrobras galgar posições na lista das 36 empresas de combustíveis fósseis que emitem 50% do carbono mundial (em 2023 era a 21ª).

De tanto falar em transição energética, Lula deixa a impressão de ter voltado a ser Vargas (Folha, 17/3/25)

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