Por Pedro Côrtess
O El Niño pode chegar ao auge no momento em que o Brasil planta a safra da qual espera um novo recorde. É uma coincidência menos tranquilizadora do que parece: chuva abundante em uma região não compensa uma quebra de produtividade em outra, e o resultado para a inflação depende de qual elo da oferta foi atingido.
Em 8 de outubro, a NOAA estimou em 83% a probabilidade de que, no trimestre outubro – dezembro, o El Niño supere todos os episódios registrados desde 1950, quando começa a série histórica considerada confiável para o Pacífico equatorial. A medida é o Índice Oceânico Relativo do Niño (RONI).
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) projeta anomalia média de 3,7 °C na região Niño 3.4 do Oceano Pacífico (utilizada para monitorar o El Niño), contra o recorde anterior de 2,6 °C, registrado entre novembro de 2015 e janeiro de 2016. São indicadores que apontam para um fenômeno de magnitude excepcional. Na escala utilizada pela OMM, eventos com anomalia média acima de 2,0 °C são considerados muito fortes. O prognóstico de 3,7 °C, com pico previsto para dezembro, equivale a quase o dobro desse limiar.
A dimensão das projeções permite até recorrer à expressão informal Super “Super El Niño”, ainda que não exista classificação científica com esse nome. Reconstruções paleoclimáticas, baseadas em registros naturais como corais, permitem investigar eventos anteriores a 1950. Embora não seja possível estabelecer uma comparação definitiva, na minha avaliação como geólogo, o episódio atual poderá figurar entre os mais intensos conhecidos, inclusive quando considerado esse passado mais remoto.
O Painel El Niño, coordenado pelo Inmet com seis outras instituições, alerta para seca no centro-norte e excesso de chuva no Sul. Segundo dados parciais do Cemaden, os municípios em seca extrema passaram de quatro para 24 em um mês. A Conab projeta 366,6 milhões de toneladas de grãos, já admitindo recuo da produtividade média. Nas grandes áreas de soja do centro-norte, calor e falta de água durante o desenvolvimento das plantas podem pesar mais que a expansão da área plantada. No Sul, a chuva pode ajudar a soja e atrapalhar o trigo.
A situação elétrica revela outra assimetria. No Programa Mensal de Operação de 3 a 9 de outubro, o ONS projetava para o mês afluências de 244% da média no Sul e 128% no Sudeste/Centro-Oeste, mas só 48% no Norte. Para Belo Monte, a previsão era de somente 22% da afluência usual; no reservatório equivalente do Madeira, a energia armazenada poderia terminar outubro em 12% da capacidade máxima. São indicadores diferentes, ambos relevantes para entender a vulnerabilidade regional, não previsões da conta de luz.
As enchentes gaúchas de 2024 oferecem um precedente útil, não um roteiro para 2027. Naquele ano, o Banco Central constatou que a inflação de Porto Alegre superou a brasileira em 0,41 ponto percentual em maio, diferença quase toda revertida em junho. Entre maio e dezembro, ficou 0,6 ponto abaixo da nacional. Grande parte do arroz já havia sido colhida; o principal obstáculo foi transportar o produto. Agora, o risco é atingir lavouras ainda em formação. Perda de produção pode demorar mais a ser compensada que uma estrada interrompida.
Por essa razão, seria precipitado transformar cada alerta climático em justificativa para elevar os juros. O Banco Central deve avaliar se o choque contamina expectativas e outros preços; o governo precisa agir onde a política monetária não alcança. O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico pode apresentar cenários de El Niño intenso com estimativas de maior utilização de termoelétricas (em geral mais caras), enquanto a Conab detalha faixas de perda por cultura e região.
O Pacífico definirá a intensidade do fenômeno. A capacidade de antecipação do Brasil ajudará a definir a dimensão da conta (CNN, 11/10/26)










