Por José Roberto Mendonça de Barros
Nossa posição no xadrez internacional melhorou, mas precisamos deixar claro que buscamos negociar numa visão de longo prazo, sem preferência ou subordinação.
Em artigo anterior, buscamos avaliar alguns efeitos das guerras tarifárias e militares. Agora é o momento de incluir o acordo de cessar-fogo assinado no Oriente Médio. Ele é amplamente favorável ao Irã e foi negociado sem a presença de Israel, que não tem alternativa senão aceitá-lo, pois hoje o país vive um isolamento gigantesco e tem apenas Trump a apoiá-lo.
Assim, temos um quadro claro de perdedores (EUA, Rússia e Israel) e de ganhadores (China, Irã e, em vários sentidos, Ucrânia).
Alguns países do Golfo saem bem chamuscados nos seus projetos de se tornarem centros globais de negócios.
No curto prazo, sobrou um choque inflacionário que já afetou a política monetária de muitos países. A reunião do Fed, sob nova direção, foi um choque ao mostrar que o próximo passo será o de elevar os juros, o que deixou o nosso BC numa situação difícil.
Acredito que a queda abrupta no preço do petróleo está exagerada e deverá ser parcialmente revertida, uma vez que levarão meses até trazer de volta os estoques globais ao nível de pré-guerra. Nos países onde a demanda está forte (como EUA e Brasil), a pressão nos núcleos da inflação seguirá significativa.
Por outro lado, a estratégia das grandes cadeias de produção será parcialmente revista. A tendência será a de privilegiar o fornecimento de regiões geopoliticamente mais seguras, manter maior nível de estoques, ampliar a rede de fornecedores e diminuir a dependência de petróleo importado, o que inclui acelerar a viabilidade e a relevância das energias renováveis.
Nossa posição no xadrez internacional melhorou. Mas precisamos deixar claro que buscamos negociar com todos os países numa visão de longo prazo, sem qualquer preferência ou subordinação.
O impacto do choque do petróleo foi aqui mitigado pela produção de biocombustíveis em larga escala, especialmente o etanol, agora reforçado por aquele oriundo do milho, em coprodução com alimentos (o DDG das rações animais).
Finalmente, está aberta a oportunidade de novos caminhos. Chamo a atenção para os veículos elétricos híbridos, movidos a etanol, que podem ganhar espaço na mobilidade sem grandes investimentos em postos de recarga, dado que o etanol está disponível na maior parte do Brasil. Os chineses já perceberam que isso é algo único e que reduz o custo de entrada no mercado.
Ainda nos novos caminhos, o biogás e a utilização de etanol em navios e grupos estacionários já são eventos de hoje (José Roberto Mendonça de Barros é economista e sócio da MB Associados; Estadão, 28/6/26)









