Fontes como a eólica e a solar agora podem fornecer energia contínua, de acordo com um novo relatório; e, muitas vezes, são mais econômicas em comparação com os combustíveis fósseis
Com a principal rota de abastecimento de combustíveis fósseis do mundo praticamente paralisada, muitos defensores da energia eólica e solar afirmam que a transição para energias renováveis está prestes a ganhar um ritmo muito mais acelerado.
O chefe do clima das Nações Unidas, Simon Stiell, descreveu recentemente uma “imensa ironia” na qual líderes que “lutaram para manter o mundo dependente de combustíveis fósseis estão, inadvertidamente, impulsionando o crescimento global das energias renováveis”.
Ele não mencionou o presidente Donald Trump, mas os Estados Unidos estão promovendo agressivamente o petróleo e o gás natural, e seu ataque ao Irã levou ao fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, rota que movimenta cerca de um quinto do comércio global de petróleo.
Levará tempo para ver como a previsão de Stiell se concretizará plenamente. Mas um relatório divulgado na quarta-feira destaca um dos motivos para esse otimismo: em um momento em que o fornecimento de petróleo e gás está diminuindo, o custo da energia eólica e solar continua caindo. E, quando combinadas com sistemas de baterias para armazenamento, as energias renováveis podem, muitas vezes, fornecer eletricidade de forma estável a um custo menor do que os combustíveis fósseis, mesmo quando não há sol ou vento.
Isso ocorre em um momento em que as exportações chinesas de painéis solares bateram recorde em março, dobrando o nível do mês anterior, com países como Nigéria, Índia e Austrália importando mais do que nunca. Analistas alertam que parte desse aumento pode ter sido resultado de compras emergenciais antes de uma mudança na política chinesa que, na prática, elevará os preços a partir de abril.
Mas existem outras evidências de uma possível mudança, como o aumento nas vendas de veículos elétricos na Europa e na Ásia, bem como o crescimento nas vendas de bombas de calor na Europa.
O relatório divulgado pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), uma organização intergovernamental sediada em Abu Dhabi, mostra como uma fragilidade tradicional da energia solar e eólica, a intermitência, está diminuindo em meio aos avanços tecnológicos e à redução do preço das baterias. A capacidade de manter um fluxo de energia previsível é particularmente crucial para projetos como data centers, que exigem um fornecimento constante.
“As energias renováveis estão entrando em um novo território”, disse Francesco La Camera, diretor-geral da agência de energias renováveis, que promove energia limpa em todo o mundo. “Nesse caso, o armazenamento fará com que as energias renováveis se tornem dominantes no sistema energético. Não há dúvida.”
Isso não significa que a energia renovável seja a solução para todos os problemas de um mundo que enfrenta um choque energético. Grandes projetos eólicos ou solares, mesmo no melhor cenário, levam vários anos para entrar em operação.
Algumas indústrias cruciais, como a aviação e a de cimento, não têm uma alternativa pronta aos combustíveis fósseis. E muitos países não têm recursos para realizar uma “mudança radical em seu sistema elétrico”, afirmou Nat Bullard, analista de energia em Singapura e cofundador da Halcyon, uma empresa de dados energéticos.
Ainda assim, Bullard afirmouque o sinal a longo prazo é bastante claro. “Faça tudo o que puder para reduzir sua dependência do petróleo importado.”
O relatório da agência de energias renováveis afirmou que os custos de armazenamento em baterias caíram 93% desde 2010, abrindo caminho para projetos em partes do mundo com abundância de sol ou ventos fortes. A China tem os custos de energia solar mais baixos do mundo, com alguns projetos fornecendo eletricidade pela metade do preço do gás. Mesmo em um país com combustíveis fósseis abundantes e baratos, como a Arábia Saudita, a energia solar pode fornecer eletricidade quase contínua a um custo cada vez mais competitivo com o dos combustíveis fósseis, segundo o relatório.

Unidades de baterias para uma usina solar em Antofagasta, Chile, no ano passado; baterias mais baratas e melhores estão tornando a energia renovável mais viável. Foto Ruth Fremson/The New York Times
Nos Estados Unidos, os custos da energia eólica e solar caíram nos últimos cinco anos, mas continuam mais altos do que em muitos outros países. La Camera afirmou que isso se deve a problemas estruturais na rede elétrica, bem como às tarifas impostas pelo presidente Trump e à lentidão na obtenção de licenças.
“O que está em jogo para os Estados Unidos é se eles querem ou não permanecer competitivos?”, disse La Camera. “Porque se os outros produtores tiverem um custo menor que o dos EUA, a economia americana será prejudicada.”
Taylor Rogers, porta-voz da Casa Branca, afirmou em comunicado que “os americanos votaram esmagadoramente no presidente Trump para que ele liberasse fontes de energia confiáveis, acessíveis e seguras, porque a pressão dos democratas pela chamada energia verde ameaçava a segurança nacional dos Estados Unidos e elevava os preços”.
“A realidade é que os países que fizeram a transição para energias renováveis ficam totalmente dependentes de outros países para obter petróleo e gás quando sua energia verde, intermitente, cara e pouco confiável, inevitavelmente falha”, disse Rogers.
Em janeiro, o governo Trump anunciou que estava se retirando da Agência Internacional de Energia Renovável.
Dave Jones, cofundador da organização de pesquisa energética Ember, afirmou que os sistemas de baterias e armazenamento de energia se transformaram tão rapidamente que “todos estão tentando acompanhar o quanto isso mudou fundamentalmente”.
Nos últimos anos, engenheiros implementaram mudanças para reduzir significativamente o risco de incêndio e prolongar a vida útil da tecnologia. E tudo isso acontece em um momento de aumento nos preços do petróleo e do gás natural liquefeito.
“Portanto, a viabilidade econômica das tecnologias limpas em comparação com os combustíveis fósseis recebeu um enorme impulso”, disse Jones (The Washington Post, 6/5/26)









