Confira as notícias do Agronegócio no Paraná

Biocombustíveis viram proteção contra alta do petróleo

Por Pedro Cortês

Governo acelera testes para ampliar mistura, mas cronograma divide indústria e mercado.

O Brasil tenta reposicionar sua política de combustíveis em meio a um cenário global de volatilidade elevada. Com o diesel pressionado por riscos logísticos e geopolíticos, e a gasolina sujeita à dinâmica de importação, o governo passou a tratar etanol e biodiesel não apenas como instrumentos de descarbonização, mas como um verdadeiro hedge doméstico contra choques externos de energia.

A sinalização mais recente veio do vice-presidente Geraldo Alckmin, ao afirmar que os testes para elevar a mistura de biodiesel no diesel — hoje em 15%, o chamado B15 — podem ser concluídos “em questão de dias”. Na prática, isso abre caminho para a adoção do B17 ainda em 2026, embora a decisão final dependa do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética). 

O ponto central é que a conclusão dos testes não equivale à implementação automática: o colegiado ainda terá de avaliar oferta, impactos de preço e segurança do abastecimento.

Esse detalhe técnico é onde a narrativa se fragmenta — e onde está o núcleo da pauta. Enquanto o governo sinaliza velocidade, representantes da indústria indicam um cronograma mais longo.

Entidades do setor apontam que, nas condições atuais, a validação completa poderia levar meses, não dias, a menos que haja expansão da infraestrutura de testes, como contratação adicional de laboratórios.

A divergência não é trivial: ela define se o aumento da mistura pode funcionar como instrumento anticíclico ainda em 2026 ou apenas como ajuste estrutural de médio prazo.

Em paralelo, o governo também avalia elevar a proporção de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% ainda neste semestre. A proposta, tecnicamente mais madura, tem implicações quantitativas relevantes.

Cada ponto percentual adicional representa centenas de milhões de litros de demanda anual por etanol, deslocando o equilíbrio entre açúcar e combustível no setor sucroenergético e ampliando a capacidade de substituição da gasolina importada.

O redesenho da política de combustíveis ocorre em um momento particularmente sensível. O diesel — base do transporte rodoviário brasileiro — permanece exposto ao mercado internacional, seja via importações diretas, seja pelo efeito de paridade.

Ao elevar a mistura de biodiesel, o governo reduz, na margem, essa exposição. Trata-se de um amortecedor imperfeito, mas relevante em um ambiente onde o preço do petróleo deixou de refletir apenas fundamentos físicos e passou a incorporar prêmios de risco associados à segurança de rotas e à integridade da infraestrutura energética.

No caso da gasolina, o raciocínio é semelhante, mas com uma vantagem estrutural: o Brasil já possui uma cadeia consolidada de etanol, com elevada capacidade de resposta. O aumento da mistura amplia essa vantagem competitiva e reforça o papel do país como uma das poucas economias capazes de internalizar parte do choque externo de energia.

Há, no entanto, limites técnicos e econômicos. Misturas mais elevadas exigem validação rigorosa quanto a desempenho, consumo e durabilidade de motores, especialmente no diesel. No caso do etanol, embora a tecnologia flex seja madura, mudanças no teor anidro afetam a eficiência energética e dinâmica de preços relativos nas bombas. 

O que emerge desse conjunto de movimentos é menos uma política setorial e mais uma estratégia macroenergética. Ao acelerar a incorporação de biocombustíveis, o Brasil tenta transformar uma vantagem histórica — sua base agroenergética — em instrumento de estabilidade econômica. 

A questão, agora, é de timing. Se o cronograma técnico acompanhar a urgência política, etanol e biodiesel podem atuar como amortecedores já no curto prazo. Caso contrário, permanecerão como promessa estrutural em um mercado que reage em tempo real (Pedro Cortês é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do País; CNN, 9/4/26)

Compartilhar:
Biocombustíveis viram proteção contra alta do petróleo
Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Ao usar este site você concorda com nossos Política de Proteção de Dados.

Central de Atendimento

Contato: André Bacarin

    Acesse o mapa para ver nossa localização