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‘Crise no Oriente Médio só agravou o problema que o agro está enfrentando’

CEO e fundador da Agroconsult diz que produtores de grãos terão pela frente a pior crise dos últimos tempos e que setor está na iminência de reduzir a área plantada e, com menor uso de tecnologia, ficar mais dependente do clima

O cenário da agricultura brasileira de grãos já não era favorável antes da guerra no Oriente Médio. Com margens apertadas por causa da queda de preços dos grãos e aumento de custos, endividamento elevado, agravado pelos juros nas alturas, o setor vinha registrando um grande número de recuperações judiciais.

“O conflito só agravou o problema que o agro está enfrentando”, diz André Pessôa, fundador e CEO da consultoria Agroconsult. O especialista observa que a guerra, por ora sem perspectiva de quando vai terminar, tem desdobramentos em preços e no abastecimento de insumos relevantes para o agronegócio, como diesel, fertilizantes e também nos defensivos.

Esse cenário está deixando os produtores aflitos, com uma boa dose de quase paralisação dos negócios, diz o consultor. Uma das frases que ele mais escuta hoje de agricultores é “para fazer negócio ruim não é preciso ter pressa”.

O que virá pela frente para o agro, segundo Pessôa, é a pior crise dos últimos tempos. Isso porque há muitas pontas soltas no setor neste momento: do crédito, do custo, do preço dos grãos, do clima, da taxa de juros, do frete, por exemplo.

Se o cenário anterior à guerra no Oriente Médio era de não crescimento da área plantada de grãos e de redução de tecnologia por causa da situação financeira dos agricultores, hoje o quadro piorou. “Agora a gente pode estar na iminência de, em vez de não só não crescer também diminuir.”

A redução do uso de tecnologia não quer dizer que a safra vai quebrar, frisa o consultor. Significa, no entanto, que o resultado da produção vai depender fundamentalmente do clima. “Um clima que deixa a desejar com uma safra, vamos dizer assim, mal adubada, é um problema.”

Esse é mais um agravamento da situação que é decorrente do conflito, afirma Pessôa. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual é a perspectiva para o agronegócio, depois da eclosão da guerra do Oriente Médio?

Basicamente acho que piorou um cenário que já não estava bom. O problema não é o conflito. O conflito só agravou o problema que o agro está enfrentando. A gente já tinha um problema contratado para esse ano e para o próximo.

Qual é esse cenário? Por que a gente vê, ano após ano, safras recordes e, de repente, aparece esse cenário ruim para o agro?

Uma coisa é o tamanho da produção, outra coisa é a situação, principalmente financeira, do setor. Eu acho que o grande problema que a gente está enfrentando e vai seguir enfrentando é a combinação de três fatores.

Quais?

O primeiro são as margens apertadas, muito apertadas para quase todas as commodities. Em especial os grãos estão com preços ou na média histórica ou já abaixo da média histórica do que deveria ser o preço de equilíbrio entre oferta e demanda.

Temos preços de commodities relativamente baixos. Quase todas as commodities estão num momento em que existe excesso de oferta e elevação dos estoques. A gente passou por um período que foi o oposto: tinha demanda correndo à frente da oferta, estoques em queda e preços em alta. Agora a gente está no sentido contrário: a oferta tem corrido na frente da demanda, os estoques têm subido e os preços têm caído. Isso tem levado a preços mais baixos que os custos de produção.

E como estão os custos?

Os custos subiram muito entre 2019 e 2022. Mas subiram menos do que os preços tinham subido. Então, eles se acomodaram dentro de uma situação que ainda permitiu uma boa rentabilidade ou uma excelente rentabilidade para os produtores agrícolas. Mas de 2023 para cá, tanto os preços quanto os custos reduziram. Só que os preços caíram muito mais do que os custos. Os custos já pararam de cair desde do ano passado. E estavam inclinando para cima outra vez antes do conflito (do Oriente Médio), mas os preços continuavam caindo. Isso significa no final do dia margens menores, muito apertadas.

O primeiro fator é a margem e quais são os outros?

O segundo é que o setor ainda vive o reflexo dos grandes investimentos realizados no período em que as margens estiveram muito altas, entre 2019 e 2022. As margens eram muito boas e muita gente investiu para caramba. Só lembrando, a gente tinha na época taxa de juros mais comportadas, dentro do que seria uma taxa de juros aceitável, de 6%, 7%, 8% ao ano.

Mas teve um período até de taxas de juros mais baixas do que essas. E muito investimento foi contratado ali naquele período, muita área acrescentada, muita tecnologia foi comprada: máquinas, investimento em solo, em irrigação, em armazenagem, em terras, em novas áreas, principalmente vindas na pecuária, para serem transformadas em lavoura. Então, o nível de investimento está muito elevado, só que tem de ser pago. O agricultor tem de pagar esse investimento.

Qual é o prazo para quitar esse investimento?

Terra é um negócio que se pagava em três, quatro anos; máquina agrícola se paga em de 5 a 10 anos. São compromissos assumidos por prazos relativamente longos. Não é de ano para o outro que se resolve, embora eu sempre goste de dividir dívida entre colesterol bom e colesterol ruim. Colesterol bom é quando você está pegando dívida para crescer, para melhorar, para ficar mais eficiente, para usar mais tecnologia, para aumentar produtividade.

Mas tem a dívida também que às vezes é contratada para tapar ineficiências ou em momentos muito difíceis do mercado, que é colesterol ruim. A dívida que o setor carrega hoje tem as duas coisas. A maior parte dos produtores estiveram envolvidos com esse processo de investimento de crescimento da área. A safra continua subindo porque a área expandiu e porque a tecnologia também deu uma turbinada nas produtividades. Mas a gente tem um momento de alavancagem ainda alto. O segundo fator é que o setor está alavancado.

Alavancagem é problema?

Alavancagem não é um problema. Principalmente quando o colesterol é bom. A margem mais apertada também não é uma novidade, já faz parte da atividade. Tem hora que a margem está melhor, tem hora que a margem está pior. O agravante do momento é o terceiro fator: o nível da taxa de juros. Esse nível de taxa de juros persistentemente alto, alto não, altíssimo, não é compatível com uma atividade produtiva. É uma insanidade do ponto de vista financeiro uma taxa de juros tão alta e por tanto tempo.

E é claro que a gente sabe as razões da taxa de juros muito alta, a questão inflacionária, o problema fiscal, o descontrole nas contas públicas e uma situação fiscal cada vez mais fragilizada. Ou seja, o descompromisso com redução de gastos que o governo na gestão atual tem, a toda hora gerando novos déficits fiscais gigantescos. Isso fez com que a taxa de juros fosse para patamares altíssimos. E aí é muito difícil. Você tem a redução da geração de caixa, que é o achatamento da margem. A alavancagem sozinha já cresceria.

Uma medida importante de alavancagem é quanto você tem de geração de caixa e de dívida. É a tal da relação dívida/ Ebitda. A dívida foi crescendo ao longo dos últimos anos e o Ebitda foi diminuindo. Então, a relação já ficou pior e a deu uma alavancagem alta. Só que uma alavancagem alta com uma taxa de juros real de 2%, 3%, 4% cabe em uma atividade como agricultura. Agora uma dívida, cuja taxa básica está em 15% e a taxa no mercado está em 20%, 21%, 22%, que essa é a taxa que os negócios têm sido feitos, não dá.

Então, você começa a ter dificuldades. Quem estava com margens apertadas ficou com incapacidade de fechar as contas. Quem estava com uma folguinha e vinha ainda fazendo algum investimento, foi para um nível de break even (ponto de equilíbrio): não paga as contas, mas não sobra nada. E aí dificulta o investimento.

E quem estava relativamente folgado já está um pouco menos folgado. Esse era o cara que absorvia, eventualmente, a área devolvida, por exemplo, de um arrendatário que está lá no primeiro grupo, que é o cara que não está conseguindo pagar as contas.

Ele devolve a área arrendada, e aí esse cara do último grupo vai e pega essa área e segue plantando. A situação foi piorando e, pelo menos, havia uma troca de mãos. A área plantada não caiu, mas tem gente que saiu do negócio. Essa era uma situação que já estava posta.

E daqui para frente?

Vamos lá, para 2025, 2026 e 2027. Aliás, a gente não viu a conclusão da safra 2025/26 ainda. A gente só colheu a primeira safra, tem mais duas pela frente, seja de trigo no Sul, seja de milho ou de algodão no Cerrado, ainda tem a segunda safra para acontecer. A primeira foi muito bem, do ponto de vista de produtividade. Mas o nível de inadimplência nas instituições financeiras, na carteira agrícola vem subindo para níveis muito altos já há alguns meses.

O grande número de recuperações judiciais que o setor vem enfrentando não é uma situação nova, já vem de 2025. E, na minha avaliação, 2026 já seria pior do que 2025, antes do conflito.

E com o conflito?

O conflito traz como impacto uma série de pioras nesse quadro. Porque alguns preços muito relevantes para a agricultura são impactados, como é o caso do preço de diesel para transporte, seja para acabar de colher a safra, transportar a safra, preparar a segunda safra ou para colocar no orçamento da próxima.

Então, tem impacto sobre diesel e o diesel acaba impactando os fretes, seja no frete do insumo que ainda precisa chegar nas fazendas; no frete da produção que ainda precisa ser escoada; ou no diesel gasto nas operações internas dentro das fazendas. Esse é um custo bem relevante que acompanha o mercado de petróleo.

O segundo é o grupo de insumos, especialmente fertilizantes. A região conflitada do Golfo, com o estreito de Ormuz, é uma região muito crítica para os fertilizantes. Uma boa parte do fertilizante nitrogenado e fosfatado tem uma parcela significativa da oferta que é impactada por aquela região. O nitrogênio, por causa do gás, participa da cadeia do petróleo, do óleo e gás, diretamente para produzir os fertilizantes nitrogenados. Outra preocupação é o fósforo, indiretamente. Os grandes fornecedores de fósforo do mundo são o Marrocos e a China.

Só que ambos precisam de um negócio que se chama enxofre. Porque o enxofre é o que vai fazer o ácido, que depois vai permitir extrair o fósforo das rochas fosfáticas e fazer os fertilizantes fosfatados de alta concentração ou de baixa concentração. A China faz mais o de baixa concentração; o Marrocos faz mais o de alta concentração. Mas, ambos precisam de enxofre e a região do Golfo é responsável por 50% do enxofre do mundo.

Se não sai dali o enxofre que vai para a China ou o enxofre que vai para o Marrocos, os fosfatados também são, em boa medida, afetados. Isso já fez subir o preço dos fertilizantes, especialmente fósforo e nitrogênio. O enxofre também subiu bastante, já estava alto, subiu ainda mais. E o Brasil importa 85% dos fertilizantes que consome.

O conflito impacta a segunda safra de grãos, que está sendo plantada?

Felizmente, a segunda safra, que está sendo plantada, está no finalzinho do plantio do milho. E o adubo já estava aqui, por isso não foi não tão afetada. A preocupação para a próxima safra é com fósforo e potássio. A gente tem uma janela do ponto de vista de logística, desde que a gente consiga trazer essas matérias-primas para o Brasil até junho, por exemplo, ou julho no máximo.

Aí, seria possível atender em setembro, outubro o início do plantio da safra de verão. Ou seja, tem tempo, não é muito tempo, mas tem tempo. O nitrogênio, talvez um pouquinho mais adiante, porque ele é mais para a segunda safra e para outras culturas, cuja utilização é um pouco mais para frente, como é o caso de cana, café e laranja, ou a própria segunda safra do ano que vem.

Então, tem um pouquinho mais de tempo. De qualquer maneira, tem dois problemas. O primeiro é o nível de preços que esses produtos atingiram. O segundo é a dúvida em relação à logística. E aí não é nem o preço, é a disponibilidade para uso mesmo na safra.

E os defensivos?

Também tem efeito sobre os defensivos. Um monte desses defensivos que a gente usa são produzidos na China, na Índia, e eles têm lá um problema hoje de disponibilidade de energia para tocar as fábricas. Não tem muita sinalização do que vai ser o preço dos defensivos daqui para frente. Um outro efeito que é de logística externa. Ou seja, qual é o preço do combustível dos navios.

Tanto para trazer coisas para o Brasil que a gente precisa, como os insumos, quanto para levar a nossa produção para onde a gente vende. Então, há toda uma reprecificação de fretes marítimos.

E como os produtores estão encarando esse cenário?

Estão aflitos, com uma boa dose de quase paralisação dos negócios. Tem uma coisa que a gente usa muito como referência, que é a relação de troca: qual é o preço da minha mercadoria no futuro, comparado com o preço dos meus insumos hoje, e o que eu vou fazer para próxima safra. Essa relação de troca já seria pior esse ano. E agora ela ficou muito pior. A frase não é minha, mas eu escuto muito dos produtores: ‘para fazer negócio ruim, eu não preciso ter pressa’.

Se existe a possibilidade de a guerra ser rapidamente concluída e os preços voltarem para casinha, e eu ainda tenho uma janela que eu posso esperar, eu vou esperar um pouco mais. Isso do ponto de vista da relação de troca. Tem um outro ingrediente que, até a eclosão do conflito era o principal assunto de 2026, que é disponibilidade de crédito. Essa redução da rentabilidade, a maior elevação do risco do setor que a gente já estava enfrentando e toda a inadimplência vem junto com uma restrição de crédito. O crédito já estava mais restrito, não é só que estava mais caro o dinheiro. Tem menos dinheiro disponível.

Esse crédito é o dos programas oficiais do governo ou o crédito privado dos bancos?

Os dois. Mesmo o principal agente repassador do crédito oficial, o Banco do Brasil, tem de explicar no balanço porque está com inadimplência tão alta. Ele também está revendo os seus critérios de concessão de crédito. Ter o recurso disponível não significa que o empréstimo será feito, porque isso vai depender da análise de risco de cada cliente. Todos os bancos, sejam trabalhando com seus próprios recursos, sejam repassando recursos do crédito rural, estão mais seletivos.

Não só porque o risco aumentou, mas também porque a inadimplência aumentou. E quando ele tem um contrato que não é performado, ele precisa ser estendido ou renegociado. Ou ele fica em aberto e a quantidade de dinheiro que pode emprestar diminui. Tem todas as regras do Banco Central, como você enquadra essas inadimplências, e isso acaba impactando a capacidade de emprestar. Isso vinha sendo refletido na seletividade do crédito.

Como o conflito amplia a percepção de risco, diminui ainda mais a oferta de crédito. Isso é um outro agravante que o conflito traz. O mercado de crédito já estava estressado. Ele tem uma elevação da percepção de risco e, com isso, fica mais estressado ainda. Agora a expectativa de geração de caixa e de disponibilidade de recursos para fazer frente ao endividamento ficou mais complicada. Quem é gestor de uma carteira tem de pedir mais garantias, tem de apertar mais os limites.

O que os produtores podem fazer?

Só tem uma parcela diminuta dos insumos da safra seguinte já comercializada. Algo entre 25% e 30% dos fertilizantes. Mas ainda falta a entrega do produto em si para os produtores, que é acertada mais próximo do plantio. Mas se você pegar outros insumos, como é o caso dos defensivos, não chega a 15%. E sementes também está lá atrás. Tem muito negócio ainda para ser feito com uma incerteza muito grande. O que dá para fazer? Acho que é esperar e rezar para a guerra ser resolvida rapidamente.

O que seria rapidamente?

Era o mês de março. Não aconteceu. Agora, eu acho que tem menos gente acreditando que resolve (a guerra) em abril do que tinha de gente acreditando que resolveria em março. Então, a chance de a gente ter um prolongamento dessa situação de fechamento do estreito de Ormuz e o reflexo sobre todos os insumos e sobre o petróleo é uma probabilidade, talvez, maior do que a gente tinha no início do conflito. Cada semana que você demora mais, ou cada infraestrutura produtiva lá na região que é perdida pela guerra, vai alongando o prazo de recuperação.

Se você demorar um mês, é um horizonte de três, quatro meses para as coisas voltarem ao normal. Se você demorar dois, vai ser até o fim do ano. Se você demorar três, é só o ano que vem. E aí você perde o período de plantio. A agricultura não pode esperar. Eu acho que o potássio a gente consegue resolver. Na guerra da Ucrânia, a gente trouxe do Canadá. O problema maior é o fósforo. Vai reduzir o nível de tecnologia, mas não quer dizer que vai quebrar a safra, porque vai depender do clima.

Um clima que deixa a desejar com uma safra, vamos dizer assim, mal adubada, é um problema. Corre-se esse risco. Vamos depender fundamentalmente do clima. Esse é um agravamento da situação que é decorrente do conflito.

O sr. acha que vai aumentar o número de recuperações judiciais no setor nos próximos meses? Porque havia um cenário que não era favorável para o agro e agora o conflito potencializou isso.

Cada dia que passa, se essa situação de conflito perdurar, aumenta a probabilidade de mais gente não conseguir performar. Agora, é bom não generalizar. O agro é muito diverso. A situação do pessoal do café hoje ainda é muito boa, a pecuária está num momento muito bom, seja de corte, leite, aves ou suínos. Depende muito do recorte regional, da cultura, dentro da mesma cultura e dentro da mesma região tem situações distintas dos produtores.

Mas o problema hoje tá mais concentrado em quais culturas e em que regiões?

Grãos, que é o grosso da safra brasileira.

Mais no Centro-Oeste?

Não.

Sul?

É geral. Depende do grau da alavancagem. De quanto de investimentos eu tenho, da dívida que eu tenho para pagar. Isso porque o grande problema é a taxa de juros e isso não é diferente de outros setores. Essa taxa de juros é uma insanidade, é uma crueldade.

Para quanto precisaria reduzir a taxa de juros para dar um alívio para o agro?

O máximo possível. Mas só vai acontecer uma queda significativa da taxa de juros depois que a gente fizer um ajuste fiscal decente. Isso vai depender da vontade política e do poder político em função de qual vai ser a composição do próximo Congresso e do próximo presidente. Recuperar o desastre que está sendo essa gestão, do ponto de vista fiscal, é um trabalho hercúleo pela frente.

Não acredito que a taxa de juros cai significativamente o ano que vem. A gente pode ir para uma trajetória descendente da taxa de juros, a depender de como vai ser enfrentado o problema fiscal a partir do ano que vem, mas ela não vai ser imediata. Vai ter de ter um processo longo de recuperação da tragédia que está ficando na área fiscal para o próximo presidente.

Então, um cenário que já era ruim piorou com a guerra?

O cenário antes da guerra era um cenário de não crescimento da agricultura. A área ficaria mais ou menos igual. Já teria uma redução de tecnologia, pela parte financeira. Não dá para dizer assim, agora vai ser maior. Se for olhar hoje, vai ser maior. Se a gente for olhar daqui a dois meses, depende da guerra, de finalizar ou não o conflito.

De qualquer maneira, quando você pensa em investimentos e expansão, que é o normal do agro, todo ano está crescendo, todo ano está movimentando uma cadeia enorme de insumos e serviços, não é de crescimento e já não era de crescimento. Agora a gente pode estar na iminência de, em vez de não só não crescer, também diminuir.

Ao longo de anos, o agro tem respondido por metade da balança comercial e é um dos pilares do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Se o cenário de não crescimento da produção agrícola se consolidar, como isso vai bater na macroeconomia?

Vai bater super mal. A gente tem visto os efeitos positivos que o agro vem gerando ao longo do tempo para controle de inflação, para disponibilidade de reserva internacional, para dar uma solidez à balança comercial. Não é que isso vá desaparecer, mas vai diminuir.

E mesmo o efeito multiplicador do agro em outras atividades, serviços, indústria, tem muita indústria, muitos serviços envolvidos no agro. Não é só a produção agrícola propriamente dita, mas tudo que ela movimenta. O desempenho do agro é o determinante no comportamento da economia de muitas regiões do Brasil. O agro tem normalmente um efeito multiplicador muito grande.

O sr. colocou a questão dos juros, que seria um fator que poderia mudar esse cenário, mas a gente sabe que é pouco provável porque tem uma variável fiscal envolvida. O que poderia ser feito para atenuar esse quadro? O que o governo poderia fazer, além de reduzir os juros?

Nem considero a possibilidade de o governo fazer algo, não fizeram nada em quatro anos. E esse quadro de piora estava claro dois anos atrás. Já era para (o governo) ter começado a se mexer. Agora, na reta final, com ministros interinos e o foco todo na eleição, esperar alguma coisa do governo, é se frustrar mais ainda. Eles nem conseguem entender o problema. Como é que vão sugerir alguma solução? A gente tem de esperar o próximo.

É a pior crise do agro dos últimos tempos?

Eu acho que o que vem pela frente, sim. Muito provavelmente é a pior crise que a gente já viu. Pelo menos que eu vi. Eu me lembro de 2005, 2006, eu acho que foi bem complicado, mas agora o número de pontas soltas no cenário, que são as incertezas, é muito grande.

A incerteza do crédito, a incerteza do custo, a incerteza do preço, a incerteza do clima, a incerteza da taxa de juros, a incerteza do frete. É muita coisa que precisa ser consertada e realinhada para a gente voltar para um cenário positivo. Aliás, são muitas commodities. Era muito comum você estar num momento assim, tem uma que está mal, mas a outra está muito boa, ainda uma região não está tão bem, mas a outra está melhor. Agora, do ponto de vista de grãos, é meio geral o aperto. Acho que o que precisaria ser feito é uma reforma muito ampla no ambiente de regulação para crédito e seguro no Brasil.

Como assim?

Na minha modesta avaliação, o arcabouço institucional e regulatório que a gente tem em crédito e seguro para o agro no Brasil é um prédio condenado pela defesa civil, que vai ruir a qualquer momento e que a gente vem fazendo puxadinhos a cada safra.

Quando eu digo que ele vai desabar é por causa do esgotamento da capacidade do orçamento público de servir às políticas para o setor. Esse governo deu uma bela acelerada nisso, mas vai piorar para frente. Ou então a gente vai chegar a um momento em que alguém vai dizer assim: “derruba isso aí e bota outra coisa no lugar melhor, mais compatível com a modernização que o agro passou nos últimos anos, com as boas práticas internacionais”. Aí constrói um novo prédio, mais moderno, para que a coisa siga. É uma mudança muito grande que precisa ser feita.

Seria uma mudança estrutural?

São todas medidas estruturantes. Não são conjunturais, não são puxadinhos para resolver o problema deste ano. Elas implicam em, primeiro, ter um bom projeto. Segundo, ter uma liderança, vamos dizer, que compre o projeto. E que, politicamente, consiga aprovar uma série de mudanças no ambiente regulatório.

Mas, sobretudo, que depois se estabeleça uma governança para que as intenções se concretizem, de fato, em programas, em modelo novo de funcionamento do sistema de crédito seguro. Vejo que esse é um passo necessário para que o mercado de capitais abrace o agronegócio e vice-versa. O que significa dizer que o financiamento do setor deveria passar, essencialmente, pelo relacionamento com o mercado privado de crédito, com o dinheiro do próprio setor.

Claro, tem ressalvadas algumas exceções aí que são mais políticas de caráter social do que de caráter econômico. Que se confundem aí dentro do arcabouço de programas do agronegócio. E separar um pouco o que é uma coisa e o que é outra e preparar o setor para desmamar, em algum momento, do orçamento público.

Daria para fazer isso rápido?

Não. Se fizer rápido, é uma ruptura e um desastre. Você derruba o prédio e não constrói o outro e todo mundo fica na rua. É preciso programar. Ir construindo um prédio novo enquanto não derruba o outro. Mas no dia em que estiver mais ou menos pronta a estrutura nova, da para a turma mudar para o novo, e aí eu derrubo o velho. Isso não é um programa de governo, é um programa de Estado.

Tem de ter um acordo entre todos os elos da cadeia produtiva para estarem olhando para a mesma direção. Tem de ter o processo legislativo alinhado com essas mudanças. Principalmente um executivo mais competente que tenha políticas de Estado e não só olhando para a próxima eleição. Aí a gente vai conseguir construir coisas mais estruturantes. Isso evitaria passar por uma situação como a gente está passando agora numa próxima crise, ou no próximo ciclo de baixa das commodities, ou no próximo aperto de taxa de juros (Estadão, 2/4/26)

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