A indústria de máquinas agrícolas deve vender neste ano 8% a menos que em 2025, afirmou, nesta quarta-feira (1/4), Pedro Estevão, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

Estevão, que participou da coletiva de apresentação da 31ª edição da Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), disse que a Abimaq revisou a estimativa anterior, pois percebeu que não há gatilho para aumento das vendas neste ano. No primeiro bimestre de 2026, as empresas comercializaram 17% a menos que no mesmo período do ano anterior.
“A gente não queria rever antes da colheita os 3,4% de aumento anunciados, até porque o clima ajudou. Mas o câmbio caiu muito e, quando o real se valoriza, o agricultor recebe menos e diminui sua rentabilidade. Ele pega os recursos que tem e gasta no custeio, mas não faz empréstimo para investir porque o dinheiro está muito caro.”
Essa conjuntura, com o acréscimo da guerra no Oriente Médio, que elevou o preço do diesel e dos fertilizantes, foi a justificativa apresentada por Estevão e pelo presidente da Agrishow, João Carlos Marchesan, para manterem a cautela e evitarem apresentar qualquer estimativa de vendas na maior feira agrícola do país, que vai de 27 de abril a 1º de maio.
No ano passado, no último dia da feira, a direção da Agrishow apresentou uma intenção de negócios de R$ 14,6 bilhões, um aumento de 7% em relação a 2024, ressaltando que o valor se referia a vendas fechados e também encaminhadas durante o evento.
Estevão disse que as vendas na Agrishow podem até ser menores ou crescerem menos que em 2025, mas ressaltou que as indústrias e os bancos se preparam para dar descontos na Agrishow.
“O volume de negócios da Agrishow é muito grande em relação à venda normal do ano e isso não vai mudar.”
Em 2025, o setor de máquinas agrícolas vendeu 8% a mais que em 2024, com um aumento de 20% no primeiro semestre e queda de 7% no segundo, graças ao crescimento da participação dos pequenos agricultores, principalmente das culturas de café, pecuária e laranja.
“O governo tem incentivado muito as vendas de equipamentos para os pequenos e para a agricultura familiar visando o aumento de produtividade e a indústria está respondendo porque esse mercado é muito grande.”
O que caiu, segundo Estevão, foi a participação do segmento de soja e milho. Mesmo assim, muitos produtores conseguiram produtividades bem acima da média e, apesar dos preços baixos das commodities, estão capitalizados.
Para Marchesan, os aumentos da inadimplência e do número de produtores e empresas do agro em recuperação judicial não são fatores que pesam contra os negócios na Agrishow.
“A inadimplência aumentou, mas as supersafras com produtividade alta acabam compensando uma parte. O problema sério do agro é o custo da Selic, com taxas desfavoráveis a investimentos. Tanto que estão sobrando recursos do Moderfrota porque não compensa para o agricultor pegar esse dinheiro caro para investir.”
Para Estevão, um agravante é o fato de os bancos estarem muito restritivos na concessão de crédito. Até o ano passado, diz, se o cliente tivesse dez prestações a pagar e atrasasse uma, ele mantinha o crédito. Agora, com apenas um atraso, o banco já considera que ele não vai pagar as outras parcelas.
A eleição presidencial deste ano também não é um fator preocupante, segundo o presidente da CSMIA.
“Eleição não atrapalha nada. Nas últimas seis, em quatro as vendas de máquinas agrícolas subiram e em duas caíram. No fim das contas é tudo bolso: se o bolso do agricultor está cheio, ele não se importa se o governo vai ser de esquerda ou direita. Ele tem bandeira, mas na hora de fazer negócio eleição só influencia se houver alguma mudança estrutural.” (Globo Rural, 1/4/26)









