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Expansão agressiva contribuiu para alto endividamento da Raízen

Por Fernanda Pressinott

Empresa produtora de açúcar, etanol e distribuidora de combustíveis busca renegociar cerca de R$ 65,1 bilhões em obrigações financeiras, mantendo pagamentos a fornecedores

A Raízen, gigante do setor de biocombustíveis controlada pelo grupo Cosan e Shell, protocolou pedido de recuperação extrajudicial na Comarca da Capital de São Paulo. O plano envolve a renegociação de aproximadamente R$ 65,1 bilhões em obrigações, tornando-se o maior processo de recuperação extrajudicial da história do país.

De acordo com informações divulgadas pela companhia, o processo foi estruturado de forma consensual com seus principais credores financeiros, que representam mais de 47% das dívidas que não possuem garantia real. Os bancos concentram cerca de metade dessa dívida, enquanto detentores de CRAs e debêntures respondem pela outra metade. A empresa teria encerrado dezembro com R$ 17,3 bilhões em caixa, valor significativamente menor que suas obrigações financeiras.

A Raízen destacou que o plano não abrangerá dívidas e obrigações com seus clientes, fornecedores, revendedores e outros parceiros de negócio. “Esse grupo é essencial para a sua operação e continuidade de suas atividades, as quais permanecem vigentes e continuarão sendo cumpridos normalmente nos termos dos respectivos contratos”, afirmou a empresa em comunicado. Segundo apurou a reportagem, os pagamentos a fornecedores seguirão normalmente, enquanto apenas o serviço das dívidas financeiras será suspenso.

A companhia, que começou como uma usina de açúcar e etanol e se transformou em uma empresa de biocombustíveis e logística, conta atualmente com aproximadamente 45 mil colaboradores. Sua trajetória de endividamento está relacionada a investimentos massivos realizados nos últimos anos, particularmente no desenvolvimento de etanol de segunda geração, produzido a partir da biomassa e resíduos da produção de cana-de-açúcar.

Investimentos que levaram à crise

Segundo análises de mercado, a Raízen vinha apresentando bom desempenho até 2021-2022, período em que registrou safra recorde e resultados financeiros positivos. A partir desse momento, a empresa intensificou investimentos em usinas de etanol de segunda geração, com unidades que custaram cerca de R$ 25 bilhões cada. Esses investimentos coincidiram com o auge da preocupação com sustentabilidade na Europa e demanda por combustíveis mais sustentáveis.

No entanto, com a pandemia, houve uma redução na prioridade dada às questões de sustentabilidade. Paralelamente, o mercado começou a adotar o etanol de milho como alternativa renovável, além de aumentar o uso de biodiesel. Essa mudança no cenário dos biocombustíveis não foi acompanhada pela estratégia da Raízen, que continuou apostando fortemente no etanol de segunda geração.

A expansão agressiva, que inicialmente tinha potencial de sucesso, resultou em um endividamento superior à capacidade de geração de caixa da empresa. Questões de gestão e investimentos em ativos que não trouxeram o retorno esperado também

contribuíram para a atual situação financeira da companhia, levando ao pedido de recuperação extrajudicial (CNN, 11/3/26)

Mais da metade da dívida da Raízen está com cinco grupos de credores. Veja lista

Bank of The New York Mellon é o que tem mais a receber da empresa.

Cinco gruposdetêm mais da metade da dívida financeira que a Raízen tem com o mercado, de acordo com a lista à qual o Valor teve acesso. O maior credor financeiro da Raízen é Bank of New York Mellon (BNY), com R$ 18,78 bilhões em créditos.

Na sequência estão os bondholders, que detêm conjuntamente R$ 7,49 bilhões em créditos; a True Securitizadora, que intermediou emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio, é credora de R$ 6,43 bilhões; a corretora Pentágono DTVM, com R$ 6,35 bilhões; e o BNP Paribas, com R$ 3,06 bilhões em créditos.

Estes credores têm, conjuntamente, R$ 42 bilhões em créditos da Raízen, de um total de R$ 65 bilhões em créditos financeiros com terceiros, mencionados pela empresa em fato relevante sobre o pedido de recuperação extrajudicial.

Alguns analistas do mercado financeiro acreditam que alguns títulos de dívida da Raízen ainda trocarão de mão e serão adquiridos por agentes que são focados em créditos “distressed”.

Segundo um analista, parte dos credores da Raízen só têm títulos da companhia porque a empresa era grau de investimento, e agora terão que se desfazer dos créditos porque não têm mandato para continuar com créditos agora em grau especulativo _ as agências de rating rebaixaram as notas da Raízen nas últimas semanas diante da demora dos sócios em apresentar uma solução de capitalização para a companhia.

Confira a lista dos 30 maiores credores da Raízen

  1. Bank of New York Mellon – R$ 18,78 bilhões
  2. Grupo ad hoc de bondholders – R$ 7,49 bilhões
  3. True Securitizadora – R$ 6,43 bilhões
  4. Pentágono DTVM – R$ 6,35 bilhões
  5. BNP Paribas – R$ 3,06 bilhões
  6. Rabobank – R$ 2,24 bilhões
  7. Bradesco – R$ 2,08 bilhões
  8. SMBC – R$ 1,95 bilhão
  9. Scotiabank – R$ 1,59 bilhão
  10. Santander – R$ 1,27 bilhão
  11. Itaú BBA – R$ 1,24 bilhão
  12. MUFG – R$ 1,18 bilhão
  13. BBVA – R$ 1,05 bilhão
  14. Banco do Brasil – R$ 1,03 bilhão
  15. Santander Corretora – R$ 878 milhões
  16. Bank of America – R$ 912 milhões
  17. Opea Securitizadora – R$ 906 milhões
  18. US Bank National Association – R$ 902 milhões
  19. Bank of China – R$ 795 milhões
  20. JPMorgan – R$ 789 milhões
  21. BNP Paribas Brasil – R$ 606 milhões
  22. Morgan Stanley – R$ 584 milhões
  23. HSBC – R$ 448 milhões
  24. Citibank – R$ 433 milhões
  25. Bank of America Merrill Lynch – R$ 389 milhões
  26. Crédit Agricole CIB – R$ 271 milhões
  27. DXC Comercializadora – R$ 170 milhões
  28. Itaú Unibanco (derivativos) – R$ 38 milhões
  29. Citibank NA – R$ 33 milhões
  30. Rabobank (derivativos) – R$ 11 milhões (Globo Rural, 11/3/26)

Bancos internacionais são principais credores da Raízen; veja lista

Unidades de produção Raízen. Foto Raízen  Divulgação

Grupo protocolou nesta quarta-feira (11) plano de recuperação extrajudicial para resolver dívida de R$ 65,1 bilhões.

Bancos internacionais, bondholders e securitizadoras concentram os maiores passivos da dívida da Raízen, que entrou com pedido de recuperação extrajudicial nesta quarta-feira (11).

A empresa protocolou um Plano de Recuperação Extrajudicial com o objetivo de reestruturar uma dívida total de R$ 65,1 bilhões.

O documento engloba obrigações financeiras quirografárias da holding Raízen S.A. e de oito subsidiárias, incluindo Raízen Energia S.A. e Raízen Fuels Finance S.A.

O passivo sujeito ao plano é liderado por instituições financeiras que atuam como agentes para investidores internacionais (bondholders), bancos globais com linhas de crédito à exportação e securitizadoras responsáveis pela emissão de CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio).

No cenário doméstico, bancos comerciais e agentes fiduciários de debêntures também figuram com montantes superiores a R$ 1 bilhão.

O The Bank of New York Mellon é o maior credor individual listado, com crédito de R$ 26,1 bilhões, representando diversas séries de bônus internacionais com vencimentos entre 2032 e 2054.

Entre os bancos comerciais estrangeiros, o BNP Paribas detém créditos que totalizam aproximadamente R$ 4,2 bilhões. No mercado de capitais brasileiro, a Pentágono S.A. DTVM atua como agente para titulares de debêntures em emissões individuais que superam R$ 1,2 bilhão.

A True Securitizadora S.A. aparece como credora de múltiplas séries de CRAs, com valores individuais chegando a R$ 1,28 bilhão. O Grupo Santander lidera entre as instituições financeiras nacionais com R$ 2,2 bilhões em créditos.

A companhia atribuiu o endividamento à elevação da taxa Selic, que se encontra em 15%, e a variações nos ciclos de colheita que reduziram margens operacionais. O plano estabelece um período de suspensão de pagamentos e proíbe a distribuição de dividendos e lucros até a homologação judicial da reestruturação.

Veja a lista dos credores do plano da Raízen:

  1. THE BANK OF NEW YORK MELLON: R$ 26.1 bilhões
  2. PENTÁGONO S.A. DTVM: R$ 6.6 bilhões
  3. TRUE SECURITIZADORA S.A.: R$ 6.4 bilhões
  4. GRUPO BNP PARIBAS: R$ 4.2 bilhões
  5. GRUPO SANTANDER (Banco e Corretora): R$ 2.2 bilhões
  6. COOPERATIEVE RABOBANK U.A.: R$ 2.2 bilhões
  7. BANCO BRADESCO S.A.: R$ 2.08 bilhões
  8. SUMITOMO MITSUI BANKING CORPORATION (SMBC): R$ 1.9 bilhão
  9. THE BANK OF NOVA SCOTIA (Scotiabank): R$ 1.59 bilhão
  10. BANK OF AMERICA (N.A. e Merrill Lynch): R$ 1.54 bilhão
  11. BANCO ITAÚ UNIBANCO S.A.: R$ 1.2 bilhão
  12. MUFG BANK, LTD. (Incluindo Banco MUFG Brasil): R$ 1.17 bilhão
  13. BANCO BILBAO VIZCAYA ARGENTARIA (BBVA): R$ 1.05 bilhão
  14. BANCO DO BRASIL S.A.: R$ 1.03 bilhão
  15. U.S. BANK NATIONAL ASSOCIATION: R$ 986 milhões
  16. OPEA SECURITIZADORA S.A.: R$ 905.7 milhões
  17. JPMORGAN CHASE BANK, N.A.: R$ 840.1 milhões
  18. BANK OF CHINA LIMITED: R$ 794.9 milhões
  19. BANCO MORGAN STANLEY S.A.: R$ 584milhões
  20. GRUPO CITIBANK (Banco e Citibank N.A.): R$ 466 milhões
  21. HSBC (The Hongkong and Shanghai Banking Corp): R$ 447.5 milhões
  22. CRÉDIT AGRICOLE (Grupo): R$ 270.5 milhões
  23. XP COMERCIALIZADORA DE ENERGIA S.A.: R$ 170 milhões (CNN, 11/3/26)

Raízen viu dívida disparar ao investir em Oxxo e etanol de segunda geração

  • Empresa de Cosan e Shell anunciou recuperação extrajudicial com dívida avaliada em R$ 65 bilhões
  • Para voltar a ser uma companhia saudável, a Raízen precisa reduzir ao menos um terço de sua dívida

Executivos de usinas e entidades do setor sucroenergético apontam, reservadamente, que o endividamento elevado da Raízen se deu, sobretudo, à busca de novas tecnologias para o seu negócio, como a produção de etanol de segunda geração. Nesta terça-feira (10), a companhia entrou com um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas.

O E2G, jargão do mercado para o biocombustível, é produzido a partir de resíduos vegetais, como o bagaço e a palha de cana-de-açúcar, e é uma aposta para a diminuição das emissões de carbono. Acontece que esse tipo de produto é tecnologicamente mais complexo e caro que o etanol de primeira geração. Além disso, o E2G tem sido deixado para trás para o etanol de milho, que tem sustentado o avanço de concorrentes da Raízen, como Inpasa e FS.

Com o endividamento crescente, a Raízen, principal produtora de etanol de cana-de-açúcar no Brasil, teve de se desfazer de ativos, como uma quase centenária usina na região de Ribeirão Preto, mais tradicional polo do setor no país.

O etanol de segunda geração é um combustível processado a partir de resíduos como palha, folhas e bagaço de cana, que permite a elevação da produtividade em até 50% sem aumentar o tamanho da área plantada, conforme a Raízen.

O projeto é visto como emblemático, por envolver tecnologias novas e limpas, mas só uma planta inaugurada em 2024 com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Guariba, no interior de São Paulo, custou R$ 1,2 bilhão. Outras unidades surgiram depois dela, como Valparaiso e Barra Bonita, ao mesmo custo.

A avaliação de executivos ouvidos pela Folha é a de que o investimento foi muito agressivo, o que pressionou o caixa da companhia. A Raízen se declara como a única no mundo a produzir o biocombustível em escala comercial.

Os negócios da Raízen passam por todas as etapas da cadeia produtiva de cana: produção de açúcar, etanol e bioenergia. Hoje, a companhia distribui e comercializa mais de 30 bilhões de litros de combustíveis anuais. Detém mais de 8 mil postos por meio da marca Shell. Além disso, opera 70 terminais de distribuição, atendendo aos principais aeroportos e mais de 5 mil empresas no país.

Em um recorte mundial, a Raízen está presente no Brasil, Argentina, Estados Unidos, França, Alemanha e Indonésia.

Antes de implementar a tecnologia de segunda geração, os resíduos eram descartados. O bagaço da cana já era usado para gerar energia, mas com o surgimento das novas plantas também passou a ser utilizado como matéria-prima, junto com a palha e outros resíduos, para a produção do etanol –num processo que inclui mais etapas, como pré-tratamento, hidrólise, separação, evaporação, fermentação e destilaria.

O avanço gradual das dívidas da gigante do agronegócio fez com que ela fosse obrigada a se desfazer de negócios, como a histórica usina Santa Elisa, em Sertãozinho, na região de Ribeirão, fundada em 1936.

A usina empregava 1.200 trabalhadores –dispensados sem aviso prévio, conforme o sindicato da categoria– e encerrou as atividades em julho do ano passado. A cana –3,6 milhões de toneladas– foi vendida para outras usinas. O objetivo da Raízen foi usar o R$ 1,045 bilhão arrecadado no negócio com a venda da cana própria e a cessão de contratos com fornecedores para reduzir o seu endividamento.

No ano safra 2024/25 –de abril de 2024 a março do ano passado–, a Raízen obteve R$ 255,3 bilhões de receita líquida, com Ebitda ajustado de R$ 10,8 bilhões. Comercializou 34,2 bilhões de litros de combustível e produziu 5,1 milhões de toneladas de açúcar.

No fim de dezembro de 2025, a empresa apresentou uma alavancagem de 5,3 vezes entre a relação dívida líquida e Ebitda. Para voltar a ser considerada uma empresa saudável, a Raízen precisaria reduzir ao menos um terço de seu endividamento, para algo próximo a R$ 24 bilhões. Parte do endividamento será resolvido com o aporte previsto de R$ 3,5 bilhões por parte da Shell e de R$ 500 milhões pelo empresário Rubens Ometto, que comandam em conjunto o negócio.

HISTÓRIA

A empresa é uma joint venture entre a Cosan e a Shell, e foi fundada em 2011, após uma negociação entre o empresário Rubens Ometto e a companhia britânica. Na assinatura do contrato havia uma cláusula segundo a qual depois de dez anos a Shell poderia comprar a participação da parceira de empreitada.

Após um início promissor da sociedade, a cláusula foi retirada a pedido da própria Shell, revelou Ometto em sua autobiografia “O inconformista: A trajetória e as reflexões do empresário que fez da Cosan um dos maiores sucessos corporativos do Brasil” (Portfolio Penguin, 2021).

“Pretendemos ficar casados com vocês para a vida inteira”, disse Ben van Beurden, CEO da Shell entre 2014 a 2022. A declaração foi em meio a um Grande Prêmio de Fórmula 1 que os parceiros acompanhavam em São Paulo.

No livro, Ometto afirma que a relação entre a Cosan e a Shell na administração do ativo é cordial, mas que, como em qualquer casamento, deve-se “brigar para manter a relação viva e também para renovar o respeito que um deve ter pelo outro”.

FRUSTRAÇÃO NO VAREJO

Em 2019, a Raízen decidiu entrar no varejo. Por meio de uma parceria com o grupo mexicano Femsa, trouxe ao Brasil o mercado de proximidade Oxxo. A empreitada foi vista como uma distração por analistas, uma vez que não fazia parte da principal linha de atuação da empresa.

A rede demandou um investimento de capital expressivo para a abertura de centenas de unidades no país, mas não teve o retorno esperado.

Depois de procurar possíveis compradores para sua parte no negócio, Ometto decidiu abandonar a Oxxo. Com a recorrente queima de caixa, a joint venture entre as companhias chegou ao fim em 2025. A Femsa retomou a administração das lojas Oxxo no país, enquanto a Raízen ficou com a gestão das mais de 1,3 mil lojas Shell Select e Shell Café.

A operação brasileira da Oxxo nunca atingiu o chamado ponto de equilíbrio, quando a operação começa a se pagar, e foi um fator agravante para a atual crise da Raízen (Folha, 12/3/26)

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