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Déficit do governo, inadimplência das famílias

Editorial Folha de S.Paulo

  • Número de endividados segue crescendo e atinge patamares recordes, mesmo com desemprego em baixa
  • Aumento desordenado de despesas sob Lula gera aumento da taxa básica de juros, o que encarece o crédito para o setor privado

Não há resolução simples para a persistente alta do endividamento e da inadimplência de famílias e empresas. Com o custo do crédito em patamar elevado, ante de uma taxa básica de juros de 15% anuais, dívidas viram armadilha, mesmo com desemprego baixo.

Os números recentes são alarmantes. Segundo a Serasa, o Brasil terminou 2025 com 81,2 milhões de inadimplentes —aumento de 10,5% em relação a dezembro do ano anterior e maior nível desde ao menos o final de 2016. No mesmo período, o birô de risco Equifax Boa Vista registrou aumento de 7,2% no número de CPFs negativados, de cerca de 55 milhões para 59 milhões.

Já o Banco Central aponta que a taxa de inadimplência no crédito às pessoas físicas subiu de 5,6% para 6,9% entre janeiro e dezembro de 2025, com saltos expressivos no cheque especial (de 13% para 17,2%) e no rotativo do cartão de crédito (55% para 64,7%).

O spread bancário (diferença entre o que os bancos pagam para captar e cobram para emprestar) subiu de 17,5% em novembro de 2024 para 20,9% em dezembro de 2025, o que reflete o encarecimento geral do crédito.

O programa Desenrola Brasil, lançado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2023, foi iniciativa pontual positiva, mas insuficiente na atual conjuntura. Beneficiou cerca de 15 milhões de pessoas e renegociou aproximadamente R$ 53 bilhões em dívidas, permitindo descontos e parcelamentos por meio de plataformas digitais.

Muitos brasileiros limparam o nome e recuperaram acesso ao crédito, em especial nas faixas de renda mais baixa. Contudo o programa não reverteu, nem mesmo estancou, a alta das dívidas.

Dados do Banco Central do final do ano passado mostram que o serviço da dívida consome cerca de 29,3% da renda mensal das famílias, maior patamar da série, enquanto o endividamento total representa quase 50% da renda acumulada em 12 meses.

As baixas taxas de desemprego, em tese favoráveis, não são capazes de reverter o quadro. Remuneradas, muitas famílias se sentem seguras para contrair novas dívidas, mas a combinação de custo elevado do dinheiro com evolução salarial modesta é potencialmente nefasta.

É imperativo fortalecer a educação financeira, com campanhas que incentivem planejamento e uso responsável do crédito. Não haverá solução duradoura, porém, sem redução robusta do custo do capital no país.

O principal algoz do devedor é o governo federal, que absorve parcela expressiva da poupança nacional para financiar déficits fiscais crônicos, pressionando as taxas de juros e encarecendo o crédito para o setor privado.

Deve-se insistir na promoção da concorrência no sistema bancário e em maior transparência nos custos efetivos das operações. Mas melhoria sustentável exige diminuir a necessidade de financiamento público, o que permitiria juros mais baixos (Folha, 10/2/26)

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