Notícias

Voltar

“Tempestade perfeita” arrasa cadeia produtiva sucroenergética

02.04.2020

Nunca um conjunto de fatores trágicos e simultâneos provocou tamanha insegurança, derrubando preços e ameaçando um setor que até então tentava-se de reerguer da crise que emergiu em 2007. Nos últimos dias, as notícias para o mercado sucroenergético não poderiam ser piores e os cenários futuros apontam literalmente para para um quadro caótico.

Se no final da década de 70 os produtores de açúcar com, o apoio do governo militar, criaram o Proálcool, programa que colocou o Brasil na vanguarda mundial da produção de biocombustíveis, ao mesmo tempo a iniciativa provocou sucessivos e importantes boicotes. No início o boicote veio da Petrobras.

Depois, no final da década de 90, houve boicote por parte das montadoras (Anfavea) que se negavam a produzir automóveis com motores a álcool. Um movimento, inicialmente tímido, a partir de Sertãozinho (SP), com o sugestivo nome de “Grito pelo Emprego e pela Produção”, reunindo produtores de cana, a indústria de bens de capital e os trabalhadores do setor, tomou corpo e obrigou o presidente FHC (PSDB) a criar políticas públicas que contemplaram o setor, e que até 2007 dobrou de tamanho (de 300 milhões de toneladas moídas/ano para 600 milhões).

‘Milagrosamente’ as montadoras anunciaram a tecnologia dos motores flex, movidos a gasolina e/ou etanol. Esta tecnologia já estava pronta mas a indústria só decidiu colocá-la nos motores dos veículos pela pressão exercida pela cadeia produtiva sucroenergética.

A crise financeira internacional de 2008 chegou com muita força ao setor que se vergou e se iniciava aí o processo de fechamento de usinas (90) e pedidos de recuperação judicial (70). Dados da FEA-USP/RP indicam que 600 mil trabalhadores perderam seus postos de trabalho no campo. A indústria de bens de capital derreteu e deixou um rastro grande de desempregados, muitos dos quais, sem receberem seus direitos trabalhistas.

Após 2008 teve início um movimento que não aparecia no radar de nenhum dos tantos “consultore$” pois, enquanto os governos Lula e Dilma Rousseff davam passos largos para tomarem de assalto a Petrobras (e outras estatais...), “pseudo-líderes” da cadeia produtiva sucroenergética iniciavam um movimento para, a partir de algumas entidades de classe do setor, imporem ações e políticas em proveito próprio (e de seus grupos empresariais).

Em 2014 a Única – União da Indústria da Cana-de-Açúcar, anunciava a contratação do ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues para a presidência do seu conselho maior. Parecia que, agora sim, haveria interlocução com o governo da presidente Dilma Rousseff. Ledo engano.

Em 2 de fevereiro de 2015, em cerimônia no Palácio dos Bandeirantes comandada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) e preparada para repetir a fórmula da integração da cadeia produtiva sucroenergética – trabalhadores e fornecedores de cana estavam organizados para ‘invadirem’ Brasília e uma ‘Frente de Governadores dos Estados Produtores de Cana-de-Açúcar” estava sendo articulada – Roberto Rodrigues anunciou sua renúncia à Única.

A biografia e a história de Roberto Rodrigues nada tinha a ver com os conchavos e a falta de ética demonstrada por alguns dos maiores dirigentes de grupos de usinas do País e do mundo. Enquanto um destes ‘líderes’, publicamente, elogiava Dilma Rousseff como “patriota”, outros negociavam a exclusividade na venda de etanol anidro à Petrobras (vide delação premiada de Nestor Ceveró no processo da Lava Jato).

Ficava claro que a Única tornara-se entidade que passou a representar, não os interesses de centenas de usinas de açúcar e etanol, e sim, de grupos interessados na distribuição do biocombustível. Distribuição esta que inclui a importação de etanol de milho dos Estados Unidos, que chega aqui isento de impostos.

A ‘força maior” declarada pela Raízen (vide nota oficial abaixo da BR Distribuidora) representa um dos atos mais vergonhosos e escandalosos da história da cana-de-açúcar no País, pois indica um calote ao setor que passa, ao mesmo tempo, as agruras do coronavírus, que paralisou o Brasil e o mundo, e a queda dos preços do petróleo e do açúcar como nunca se viu até então na história.

A Única distribuiu à imprensa, na manhã de ontem, nota oficial na qual “rechaça veementemente a postura (das distribuidoras de etanol e energia) e, mais do que isso, espera que esse comportamento predatório não tome o lugar da necessária solidariedade econômica que o momento exige”.

Diz mais a nota da Única: “Sob o ponto de vista jurídico, as notificações (Da BR Distribuidora e da Raízen) ignoram os pressupostos legais para a alegação de força maior e pretendem criar uma verdadeira licença para não pagar. Sob o ponto de vista econômico, empresas altamente capitalizadas, com farto acesso ao crédito nacional e internacional, pretendem transferir aos elos mais frágeis as responsabilidades que competem a elas e para as quais se prepararam nos últimos anos”.

A ser verdade o teor da nota, a entidade passa a partir de agora a representar não mais os interesses das distribuidoras e sim dos seus associados, produtores de açúcar, biocombustíveis e bioenergia. Oxalá não seja tarde demais pois os cenários e as perspectivas para a cadeia produtiva sucroenergética são ruins, muito ruins.É esperar e conferir! (Ronaldo Knack é jornalista e bacharel em administração de empresas e direito. É também fundador e editor do BrasilAgro, o primeiro site de notícias das cadeias produtivas do agronegócio)



Fonte: Assessoria de Comunicação