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Futuro do transporte: O que vamos fazer quando a gasolina acabar?

09.04.2018

Automóveis movidos apenas a combustíveis de origem fóssil chegam à fronteira final. Os motores jamais foram tão eficientes quanto agora, mas as chances de controlar emissões de poluentes se esgotam mais rapidamente que a gasolina no tanque.

Na Europa, soluções em alta para controlar o lançamento de gases que pioram o efeito estufa são banir o diesel e eletrificar os carros.

Essas opções estão distantes do Brasil, onde não há infraestrutura para recarga nem incentivos capazes de estimular a produção de veículos elétricos acessíveis.

Em 2017, apenas 0,2% dos carros vendidos no país eram híbridos ou elétricos, com preços a partir de R$ 120 mil.

Antes que os carros "emissão zero" cheguem de vez por aqui, o futuro mais limpo passa pelo etanol.

Um modelo flex abastecido com álcool emite até 90% menos CO₂ do que com gasolina, diz o engenheiro Henri Joseph Junior, diretor técnico da Anfavea (associação nacional das montadoras).

O derivado da cana ganha força no programa RenovaBio, que incentivará produção e consumo de combustíveis renováveis. Mas há questões de aceitação devido aos preços cobrados Brasil afora.

Em março, o litro do álcool custava R$ 4,02, em média, no Rio Grande do Sul. O valor equivale a 92,7% dos R$ 4,34 cobrados pela gasolina, segundo a ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).

Para que seja bom ao bolso, o preço do etanol precisaria equivaler, em média, a 72,5% do cobrado pelo combustível fóssil, segundo estudo feito pelo Instituto Mauá de Tecnologia a pedido da Unica (entidade dos produtores de cana-de-açúcar).

O cálculo considera o quanto a mais um carro consome de álcool na comparação com a gasolina. São Paulo é um dos poucos estados em que o etanol é vantajoso. Seu preço médio em março (R$ 2,87) equivale a 71,9% do cobrado pela gasolina.

Eis o problema: para convencer os donos de milhões de carros flex a priorizar o uso do combustível renovável, o preço do álcool teria de ser menor, a despeito das questões de produção, transporte e tributação estadual.

"Cheguei a procurar postos em que o etanol fosse vantajoso, mas não achei nenhum. Continuo com a gasolina", diz o gerente empresarial Max Braga Fernandes, 43, que mora no Espírito Santo.

No passado, o problema do álcool foi a crise de abastecimento no momento em que 97% dos carros à venda eram movidos por esse combustível, como ocorreu em 1985.

A solução para a crise do petróleo virou dor de cabeça quando o preço da gasolina caiu e os usineiros deixaram de produzir etanol para priorizar o açúcar. Em 2003, com a chegada do carro flex, voltaram os investimentos no combustível renovável.

Hoje, a Unica diz que o setor se recupera das perdas sofridas com a política adotada no governo Dilma, quando o preço da gasolina foi mantido artificialmente baixo.

Muitas usinas fecharam devido a essa estratégia, mas, segundo a entidade, o equilíbrio virá com a tecnologia.

"Caminhamos para as biorrefinarias, com produção de etanol a partir do bagaço da cana, de biogás e de bioquerosene de aviação", diz Alfred Szwarc, consultor de emissões e tecnologia da Unica.

Em um futuro ainda distante, o álcool será combinado a motores elétricos, como na versão do modelo híbrido Prius, testada pela Toyota.

A montadora japonesa já confirmou que, neste ano, deixará de vender carros a diesel na Europa e vai investir mais pesado na eletrificação -que ainda tem muitos problemas por resolver.

"A eletrificação zera a emissão de poluentes, mas é preciso questionar se as emissões de fontes de energia que carregam os carros também são zero", diz Joseph Junior.

De acordo com a EIA (sigla em inglês para Agência Internacional de Energia), 36% da eletricidade usada na recarga de carros vem de fontes menos agressivas ao ambiente, seja energia eólica, solar ou gerada por hidrelétricas.

"A transição para veículos eletrificados é um desafio. Nos mercados com alta tributação, o número de vendas se mantém muito baixo", diz Gleide Souza, diretora de assuntos governamentais do BMW Group Brasil.

Gleide cita o que ocorreu na Holanda e no estado americano de Oregon, locais em que o fim de benefícios fiscais praticamente encerrou a venda de carros eletrificados.

Na Dinamarca, mudanças na legislação fizeram os carros limpos ficarem até 40% mais caros que antes, superando os preços de modelos equivalentes a gasolina. As vendas de veículos "verdes" caíram 60% entre o primeiro trimestre de 2016 e de 2017.

Na vizinha Noruega, incentivos aos elétricos fazem as vendas baterem recordes. No ano passado, 21% dos veículos vendidos por lá tinham tecnologia que permite rodar sem emitir fumaça.