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Consecana engessado pode valorizar movimento por novos contratos ou pela cana spot

04.04.2018

Na largada de uma safra do Centro-Sul com um volume menor dos fornecedores (60 milhões t) – e próxima do empate ou 1 a 2% mais fraca na soma geral com a cana das usinas (590 milhões t) –, não há sinais de mudanças na formulação dos preços como havia esperança há uns dois meses. E voltou-se a discutir a necessidade de que muitos produtores, dentro do possível, revejam seus contratos de fornecimento, exigindo contrapartidas ou não assinando mais, ou mesmo se aventurem na cana spot.

O Notícias Agrícolas conversou nesta terça (3) com várias lideranças que falam em alguma forma de “rebelião” em relação ao Consecana – o colegiado que precifica o valor da cana – após a entrevista dada aqui pelo presidente da Orplana, Eduardo Romão, nesta segunda (2), quando ele disse que houve retrocesso na possibilidade de aplicação de uma nova fórmula de cotação. Mas a maioria pediu anonimato enquanto a entidade que agrega as 33 associações regionais permanecer na mesa de negociação.

Segundo Romão deixou bem claro, por pressão dos grupos industriais praticamente saiu da agenda a nova política proposta de fixação do ATR, que pode-se resumir em pagamento por meritocracia, elevando assim a possibilidade de valores maiores que não apenas a formulação atual que pondera custos e comercialização no mix.

Mas não foi surpresa geral também. Na Associação dos Fornecedores de Cana de Piracicaba (Afocapi) há muito tempo que se prega o fim do “Concesacana seco”, ou seja, o contrato de fornecimento sem nenhum tipo de bônus. José Coral, presidente da entidade e primeiro presidente da Orplana, que defendeu a criação do colegiado, há quase duas décadas, vem há muito tempo batendo nessa tecla, inclusive em entrevista ao Notícias Agrícolas em 2017.

Defasagem
Arnaldo Antonio Bortoletto, presidente da Coplacana, cooperativa e braço comercial da Afocapi, acha que o momento é mais apropriado, depois de uma safra passada com rentabilidade baixa e com a 18/19 sem perspectivas de melhoria. “Não temos capacidade de investimentos”, diz.

E não é só a dificuldade de emplacar um novo sistema de preços para o ATR, mas mesmo dentro da configuração atual a defasagem está estabelecida. O estatuto do Concecana fala em revisão dos modelos de custos, por exemplo, de cinco em cinco anos, mas já está a sete sem revisão. “Entendemos a crise do setor, mas não podemos ficar só nós com a remuneração deprimida.

Pela base de cálculo, de maneira simplista, os custos do Consecana deveriam ser maiores na parte agrícola e menores na parte industrial, mas haveria uma inversão, e as usinas estão levando entre 6 a 7% a mais. As usinas, de acordo com Bortoletto, alegam que investiram mais e, portanto, têm mais riscos.

Ele vê, diante desse impasse setorial, a possibilidade de a Coplacana crescer, isto é, produtores vão saindo dos contratos e devem migrar para a cooperativa fazer a comercialização, que hoje é apenas 5% dos 8 milhões de toneladas de cana independente da região de Piracicaba.

Embora nenhuma usina consiga sobreviver só com a cana dela própria – a menos nas unidades que optaram apenas por matéria-prima comprada, coma a Zilor (Lençóis Paulista/SP) e Coruripe (Campo Florido/MG), porém com sólidas parcerias no campo -, está em jogo a questão da concentração – ou desconcentração. Em regiões com pouca ou, pior, nenhuma concorrência pela cana, haveria a dependência total dos produtores com o dono da esteira, daí que dificilmente o usineiro acaba dando um plus. Há regiões, por exemplo, com várias unidades, mas sob uma ou duas bandeiras, o que daria no mesmo. E, outras, onde a proporção da cana esmagada própria das usinas e de terceiros é mais proporcional à primeira.

E, nessas horas “por mais técnico que o Consecana pode ser, as usinas tem totais condições de dar as cartas”, disse um dos entrevistados.

Cana balcão
O melhor cenário é da região Centro-Norte e Norte de São Paulo, onde a concorrência é boa. Lá acontece de muitos reservarem parte de sua safra para negociar apenas no spot, quando conseguem até um pouco além da referência Consecana especialmente quando há falta de matéria-prima. Em 2018 há uma expectativa de que esse grupo cresça, já que poderá faltar cana.

Mas isso embute riscos também. “E também em um momento ruim a usina pode não precisar comprar”, lembra Gustavo Chavaglia, presidente do Sindicato Rural de Ituverava (SP). Aí, o produtor terá que rifar a qualquer preço.

A questão de fundo que deve se levar em conta é de como esse movimento se desenrolará diante da insatisfação crescente. Se aumentar o número de contratos pelo Consecana e mais alguma coisa ou o mercado ‘spoteiro”, como os grupos vão usar seu poder de fogo?

Fonte: Notícias Agrícolas/ Nova Cana