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Nutrição equilibrada potencializa maturação

01.06.2017

Outros fatores que afetam são umidade, luminosidade e temperatura, além de recursos extras como o uso de maturadores

Cada variedade de cana-de-açúcar tem o seu tempo de maturação e não há nada melhor para aumentar a produção de ATR (Açúcar Total Recuperável) do que colher na época certa, principalmente nos meses de julho, agosto e setembro. Entretanto, é possível não só interferir na maturação da cana-de-açúcar com o uso de maturadores, mas também potencializar os resultados, fazendo um manejo nutricional específico.

O assunto foi tema de palestra feita pelo professor doutor Carlos Alexandre Crusciol, do Departamento de Produção e Melhoramento Vegetal da Unesp de Botucatu (SP), durante o IV Simpósio Cana Crua Paraná Arysta LifeScience, realizado recentemente em Maringá.

Normalmente, disse o professor, as pessoas relacionam a maturação da cana com a umidade, pensando que ao se iniciar um período de estresse hídrico, a cana vai maturar, mas, esquecem outros fatores que afetam o processo, como a luminosidade e temperatura, ou recursos que podem favorecer, como o uso de maturadores e, principalmente, de nutrientes, destacou.

Para que a maturação ocorra, explicou, é preciso diminuir a umidade, mas a temperatura também. Se houver uma estiagem, mas o clima continuar quente, por conta do processo de evapotranspiração, a planta investe em mecanismos para reduzir a temperatura, gastando energia. E um dos primeiros recursos é secar a folha de baixeiro. “Até há pouco tempo achava-se que perder a saia não tinha problema, mas hoje se sabe que se esta secar, a planta perde produtividade. Essas folhas pegam radiação difusa e fazem fotossíntese”, afirmou Crusciol.

A planta também não se desenvolve se não tiver luz, mesmo se houver chuva e calor. Da mesma forma, aplicar maturador com o tempo nublado também não funciona. “Sem luz a planta fica parada. Precisa de luz incidente para crescer ou maturar”, explicou o professor doutor, lembrando que o uso de maturadores tem se consagrado como estratégia para acelerar o processo na cana.

Crusciol destacou, entretanto, o manejo nutricional como uma forma de interferir na maturação da cana, potencializando os resultados com o uso de maturadores. “Alguns nutrientes participam diretamente da formação de sacarose. Quando eles estão desequilibrados, a planta, como estratégia para perpetuar a espécie, reverte o açúcar em amido, em energia, para voltar a crescer. Já adubada corretamente, produz muito sacarose”, afirmou.

Área de vinhaça produz mais cana e menos açúcar

As áreas de cana-de-açúcar onde é feita a aplicação de vinhaça são as que mais produzem cana, mas são as que menos produzem açúcar. O problema é que a vinhaça é rica em potássio e a saturação do nutriente no solo reduz a absorção de outro, o magnésio, fundamental para que a glicose e a frutose se unam gerando a sacarose.

“Esse desequilíbrio não significa que há uma deficiência do nutriente no solo, mas o seu efeito é a redução da produção de açúcar”, afirmou o professor doutor explicando que quando há excesso de potássio, as ligações são deficitárias mesmo quando há magnésio presente, porque a planta dá preferência para a absorção do potássio, deixando o magnésio em desequilíbrio, mesmo tendo este em bom volume no solo.

Quando o magnésio está em desequilíbrio, a planta tende a fazer mais amido e menos sacarose. Além disso, o excesso de potássio faz com que a cana produza ácidos que intoxicam a levedura no processo de fermentação e arrebentam com a indústria. A aplicação foliar do nutriente, em pré-maturação, na fase final, ajuda a amenizar o problema.

PALESTRA

Há nutrientes chaves para cada etapa

Todo processo de fabricação, transporte, acúmulo e armazenamento de açúcar na planta necessita de um manejo nutricional específico

O professor doutor Carlos Alexandre Crusciol, da Unesp orientou que, da mesma forma que se faz um manejo nutricional visando produtividade de cana-de-açúcar – para dar quantidade –, depois é necessário outro manejo nutricional para dar qualidade a matéria prima. “Todo processo de fabricação, transporte, acúmulo e armazenamento de açúcar na planta necessita de nutrientes chaves”, disse.

O professor explicou de uma forma simplificada que aplicar nutrientes em pré-maturação é arrumar a “fábrica” da planta para fazer açúcar. E que isso aumenta o potencial de resposta do maturador, que é o “gerente da logística”. “O maturador não aumenta o acúmulo de sacarose na planta, mas gerencia, muda a rota para onde a planta está mandando o açúcar. A resposta deste depende se a fábrica é boa e aí entra o nutriente”, disse.

Segundo o pesquisador, o que faz açúcar são os nutrientes e a época de aplicação destes em pré-maturação é determinante para o sucesso da prática. Mas, mesmo se não houvesse aumento da produção de açúcar com o uso de nutrientes em pré-maturação, o produtor já ganharia com o aumento da produção de toneladas de cana por hectare.

“É um novo custo, mas dá um baita retorno. A associação de nutrientes pré-maturantes com maturadores é melhor do que a aplicação de apenas um ou de outro isoladamente, com resultados positivos em TCH e ATR e na rebrota da soqueira. Um teste feito em uma área pelas usinas pode comprovar isso”, afirmou o professor.

Crusciol ressaltou ainda que é preciso reforçar a adubação da cana soca quando houver o surgimento de “broto chupão”, para evitar que a rebrota venha fraca. Quando o colmo está em fase de maturação, manda açúcar para o rizoma, como reserva. Quando surgem os brotos, estes absorvem a reserva da raiz, prejudicando o desenvolvimento da cana soca, e fazem com que uma lavoura de 120 toneladas no primeiro corte, produza 70 no segundo. “É preciso fazer uma aplicação de potássio, fósforo, boro e zinco, além do nitrogênio, para sintetizar os hormônios de crescimento, fazendo a aplicação na boca, a lado da soqueira”, recomendou.

Como atuam na planta

Fósforo (P) – é um dos principais nutrientes na maturação e produção de açúcar. Atua no transporte de energia e na atividade enzimática, aumentando a produtividade em TCH e em sacarose. Em aplicação foliar, rende quase uma tonelada de açúcar a mais por hectare.

Potássio (K) – fundamental no transporte de carboidratos, na atividade estomática e na taxa fotossintética. Quando em deficiência, causa menor teor de açúcar nos colmos e acúmulo nas folhas, mas se em excesso, provoca deficiência de Magnésio induzida por inibição competitiva. Mantém o equilíbrio hídrico e o processo de fotossíntese em cultivos sob estresse hídrico.

Nitrogênio (N) e Molibdênio (Mo) - atuam na fotossíntese, favorecendo o crescimento das plantas e a produtividade. E o que faz o Nitrogênio ser incorporado e não ficar livre na planta é o Molibdênio.

Magnésio (Mg) - favorece a clorofila, fotossíntese e atividade enzimática.

Zinco (Zn) - é constituinte de enzimas, atua no metabolismo de carboidratos e proteínas e ajuda na fotossíntese.

Boro (B) – atua em todo o ciclo da planta: na estrutura da parede celular, na formação e balanço de fitohormônios, produção de raízes absorventes, participa da síntese e transporte da sacarose e na construção de “estradas”, sendo por isso um dos principais nutrientes que ajudam na produção de açúcar.

Fe, Ca, Mo – essenciais em processos enzimáticos.


PALESTRA

Maturador dá resultado no final da safra

A planta desse período é a que mais perde açúcar podendo causar prejuízos consideráveis

Boa parte das usinas ainda vê como desnecessário o uso de maturador no final de safra. Entretanto, o professor doutor Carlos Alexandre Crusciol, da Unesp de Botucatu (SP), alertou que há uma perda gigantesca de açúcar no processo. Com temperatura e umidade em alta no período, a planta tem todas as condições favoráveis para o crescimento vegetativo, com gasto de energia e sacarose para voltar a crescer.

“Cana de final de ciclo é onde mais se perde açúcar”, afirmou Crusciol. Ele ressaltou que mesmo que não chova, a partir do momento que se inicia a primavera, começa a cair a produção de açúcar, porque o dia se torna mais longo e as temperaturas, mais altas. “Nos primeiros 15 dias há uma perda de dois a três kg de ATR por dia, sem considerar impurezas. Em vez de produzir, a planta consome”, ressaltou.

Aplicado no final da safra, o maturador inibe a retomada do desenvolvimento vegetativo, mantém o teor de sacarose que a planta apresenta no período de baixa disponibilidade hídrica e temperaturas amenas (outono, inverno e início de primavera na região centro-sul brasileira). Mais usado no início da safra, o maturador diminui a taxa de crescimento da planta, possibilita incremento do teor de sacarose, induz precocidade na maturação, aumento da produtividade e inibe o florescimento. No meio de safra, aumenta o teor de sacarose das variedades da época nas regiões mais chuvosas.

Crusciol orientou que é preciso ter cuidado na escolha do maturador, havendo os inibidores de crescimento, de resposta rápida, e os retardantes de crescimento. “Tem que saber como cada um funciona na planta antes de escolher qual o melhor de acordo com a logística da empresa e a necessidade do momento. Tem o tempo certo de usar cada formulação e é preciso saber manejar”, disse, citando que se a planta ainda está em crescimento, tem TCH (tonelada de cana por hectare) para produzir, “espere para aplicar mais tarde, usando um produto de resposta rápida”.

Ainda sobre maturadores, Crusciol afirmou que é preciso haver um trabalho conjunto com empresas para ajustar doses dos produtos de acordo com as variedades. E que a dose do produto deve variar de acordo com a produtividade da cana e não considerando a quantidade de hectares.

Também alertou que o uso de glifosato como maturador reduz a produtividade na cana soca e pode deixar resíduo. Dependendo da variedade, de 5% a 20% do produto desce para a raiz, sendo difícil desintoxicar a planta, que tem dificuldade de brotar.

Cana bisada é estratégica

Colher cana bisada em fevereiro pode ser uma estratégia interessante para muitas usinas, segundo o professor doutor Carlos Alexandre Crusciol, da Unesp. “É uma forma de a indústria começar a colher mais cedo.
Dependendo da variedade de cana, dá para bisar a lavoura, deixando-a no campo, sem colher, de um ano para o outro. Em muitos casos, é melhor colher cana bisada do que antecipar a colheita da variedade precoce”, disse.

Ele explica que as variedades precoces, que têm como período ideal para colheita a partir de abril, produzem em fevereiro cerca de 70 kg de ATR por tonelada de cana. Já no caso da cana bisada, há uma perda média no período de 10 a 30 kg de ATR, o que significa reduzir a produtividade de 150 kg de ATR para 120 kg por tonelada de cana, o que ainda é bem melhor.

Crusciol alerta, entretanto, que há os casos em que não é bom arriscar. Se tiver chuva e temperaturas altas após o período de maturação, a cana retoma seu crescimento e perde sacarose. O colmo da cana dura em média de 18 a 26 meses. Depois, começa a morrer e vira vara seca. “E o que a indústria quer são sacarose e etanol”.