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Aplicar nutrientes potencializa maturação

03.05.2017

Vários trabalhos mostram essa interferência e a necessidade de equilíbrio entre estes na planta

Pesquisas recentes têm mostrado que a aplicação de nutrientes em pré-maturação, antes da colheita da cana-de-açúcar, pode potencializar a produção de sacarose, que é o que interessa para a indústria sucroenergética. E quando o uso deste é aliado ao de maturadores, os resultados obtidos são ainda melhores. A afirmação foi feita pelo professor doutor da Unesp de Botucatu, Carlos Crusciol, em reunião técnica promovida pela Dupont, em Maringá.

“Há vários trabalhos em desenvolvimento que mostram essa interferência e a necessidade de equilíbrio entre os nutrientes para uma boa maturação. Os resultados são bons, mas, é necessário serem feitas mais pesquisas a respeito”, afirmou.

O pesquisador ressaltou que os nutrientes são os responsáveis pela produção de sacarose e que uma cana desequilibrada nutritivamente produz menos açúcar. Muitas vezes, o que ocorre é uma reposição não adequada dos nutrientes. Quando se trabalha com variedades mais produtivas a extração é maior e a adubação deve atender a demanda.

Mas ele citou que há os casos em que uma análise do solo pode mostrar a existência dos nutrientes no solo em boa quantidade, mas a maturação ser afetada. São deficiências que nem sempre reduzem o TCH (toneladas de cana por hectare), mas afetam a maturação.

“O problema, aí, é o desequilíbrio entre eles”, disse, ressaltando que o crescimento e a maturação não são controlados pela quantidade total de recursos disponíveis, mas pelo recurso mais escasso, que atua como fator limitante.

Um exemplo disso é o que corre nas áreas onde é aplicada a vinhaça. “É a que mais produz e tem maior longevidade, mas é a que menos matura. A cana de área de vinhaça é a que apresenta menor rendimento industrial, cai a taxa de fermentação e a eficiência em fazer açúcar e etanol, produzindo mais amido, cinzas e melaço”, citou.

O problema é que a vinhaça é rica em potássio e a saturação do nutriente no solo reduz a absorção de outro, o magnésio, fundamental para a produção de sacarose. Os dois são absorvidos pela planta pela mesma “porta de entrada”, e na disputa por “espaço”, o potássio ganha, deixando o magnésio em desequilíbrio na planta, mesmo tendo este em bom volume no solo, afirmou Crusciol. E o magnésio é fundamental para fazer ligação da glicose com a frutose resultando em sacarose, que é o que interessa para a indústria.

Maturador não produz açúcar, só gerencia a rota

O professor doutor da Unesp, Carlos Crusciol, comentou que os nutrientes agem em todas as etapas, desde a produção, transporte e acúmulo de sacarose, e o desequilíbrio nutricional interfere no resultado. “Com a planta bem nutrida, através da aplicação de nutrientes de forma equilibrada, há uma melhora dos resultados”, disse.

Normalmente, o uso isolado de maturadores entregam de cinco a oito quilos de açúcar em média e podem chegar a 12 se muito bem manejado. “Em uma planta nutrida de forma adequada e equilibrada, o uso do maturador multiplica os efeitos”.

Ele explicou de uma forma simplificada que aplicar nutrientes em pré-maturação é arrumar a “fábrica” da planta para fazer açúcar. E que isso aumenta o potencial de resposta do maturador, que é o “gerente da logística”. “O maturador não aumenta a produção de açúcar, mas gerencia, só muda a rota. A resposta deste depende se a fábrica é boa”, diz.

Segundo o pesquisador, mesmo se não houvesse aumento da produção de açúcar com o uso de nutrientes em pré-maturação, o produtor já ganharia com o aumento da produção de toneladas de cana por hectare.

Para acúmulo de sacarose

Fósforo (P) – é um dos principais nutrientes que ajudam na maturação e produção de açúcar. Atua no transporte de energia e na atividade enzimática aumentando a produtividade em TCH e em açúcar.

Potássio (K) – fundamental no transporte de carboidratos, na atividade estomática e na taxa fotossintética.

Nitrogênio (N) e Molibdênio (Mo) - atuam na fotossíntese.

Magnésio (Mg) - favorece a clorofila, fotossíntese e atividade enzimática.
Zinco (Zn) - é constituinte de enzimas, atua no metabolismo de carboidratos e proteínas e ajuda na fotossíntese.

Boro (B) – atua na parede celular, no transporte de açúcar através da membrana, formação e balanço de fitohormônios, produção de raízes absorventes, participa da síntese e transporte da sacarose e na construção de “estradas”, sendo por isso um dos principais nutrientes que ajudam na produção de açúcar.


CANA-DE-AÇÚCAR

Porquê usar maturador

Produto auxilia no manejo varietal e no planejamento da colheita, além de influenciar na qualidade dos processos industriais e produtos finais

“O fator mais importante para aumentar a produção de ATR (Açúcar Total Recuperável) é colher na época certa”, disse o pesquisador da Unesp, Carlos Crusciol. Os meses ideais são julho, agosto e setembro. Antes disso, a cana ainda não está pronta para ser colhida, e depois, já inverteu o processo e está “queimando” sacarose para voltar a vegetar. E mesmo nos meses tidos como ideais, o clima, como chuvas em abundância, podem dificultar a maturação. Por isso, o uso de maturadores é fundamental.

A falta de água é o principal maturador no Brasil, porque o frio não é suficiente para levar a cana a maturar. Mas, nem toda seca faz a cana maturar. “Se o veranico for acompanhado de altas temperaturas, não matura. Se cortar a água de uma vez, não matura, tem que ser paulatinamente. A planta tem que ir acostumando aos poucos”, afirmou. Se houver uma seca drástica a cana tenta se proteger, gastando muito açúcar para se defender.

Produzir cana-de-açúcar em abundância é o principal fator para se ter uma alta produção de açúcar, mas vários problemas fazem perder açúcar. Escolha de variedades, luminosidade, temperaturas, umidade, falta ou desequilíbrio de nutrientes, florescimento e até a escolha errada do maturador pode afetar a maturação.

Crusciol explicou, por exemplo, que o aumento de temperatura e umidade, no final da safra especialmente, favorece o crescimento vegetativo resultando em gasto de energia. Temperatura em queda retarda ou paralisa o crescimento. O ideal é temperatura média-baixa e umidade baixa, que reduz o ritmo de crescimento, mas ainda mantém boa fotossíntese, resultando em um saldo de energia armazenada maior. Também, em dias nublados a planta não madura, mesmo se estiver calor. A cana precisa de luz para crescer e madurar.

Segundo o engenheiro agrônomo Fábio Carvalho, da empresa DuPont, o uso do maturador auxilia no manejo varietal e no planejamento da colheita. Ele citou que com os avanços tecnológicos e a mudança no ambiente de colheita, com a mecanização, houve uma redução nos índices de ATR (kg/t cana).

“Em média, a cana queimada rende de 4 a 7 kg de açúcar a mais que cana crua. Com mecanização, passou-se a levar mais ponteiro, folha e impurezas para a indústria, reduzindo a qualidade da matéria prima também, o que faz diferença no processo. Tem que saber conviver com isso e o maturador ajuda”, afirmou Carvalho.

O engenheiro agrônomo da DuPont destacou que a maior influência do maturador é justamente sobre o ponteiro. “Há trabalhos que mostram uma variação que chega a 300% no aumento do teor de açúcar no ponteiro”, citou.

Dentre as vantagens de usar o maturador, Carvalho apontou ainda a influência nos processos industriais e produtos finais, melhorando a qualidade e aproveitamento da matéria prima, reduzindo incrustações, o tempo nos cristalizadores e aumentando a recuperação e produtividade da fábrica e a produção de açúcar.

No final da safra dá resultado

Usinas não costumam utilizar maturador no final da safra, mas teriam bons resultados se o fizessem, disse o pesquisador da Unesp, Carlos Crusciol, que recomendou a aplicação do maturador o ano todo.

No início da safra, o uso do maturador diminui a taxa de crescimento da planta, possibilita um incremento do teor de sacarose, levando a precocidade na maturação, aumento de produtividade e inibe o florescimento.

No meio da safra, aumenta o teor de sacarose das variedades da época em regiões chuvosas. E no final da safra, inibe a retomada do desenvolvimento vegetativo, mantém o teor de sacarose que a planta apresenta no período de baixa disponibilidade hídrica e temperaturas amenas (outono-inverno e início da primavera da região Centro-Sul brasileira).

Crusciol também disse que compensa trabalhar com cana bisada como estratégia para abrir a safra, em fevereiro ou março, podendo produzir mais açúcar que a cana precoce. Ele citou que há variedades que, quando bisadas, respondem bem ao maturador.


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É preciso saber manejar

Todas as formulações funcionam, mas cada uma tem o momento certo de aplicar, adequando as características das variedades ao planejamento da colheita

Todos os maturadores funcionam e trazem bons resultados, mas é preciso saber manejar para não ter problemas, adequando as características das variedades de cana ao planejamento da colheita. Cada um tem o momento certo de aplicar, orientou o professor doutor da Unesp de Botucatu, Carlos Crusciol.

Citando os principais maturadores, disse que há os que atuam inibindo o crescimento como glifosato, sulfometuron metil, bisbiribaque sódico, orthosulfamuron, fluazifop-p-butyl e cletodin. E há os retardantes de crescimento como etil-trinexapac e etefon.

O pesquisador disse, por exemplo, que o glifosato deve ser usado só em área de reforma porque apesar de maturar bem e ter custo acessível, deixa resíduo e reduz produtividade e longevidade do canavial. O produto é translocado para o rizoma e reduz a produtividade da cana soca em até 13%. “Até 20% do que é aplicado como maturador vai para o rizoma e afeta a rebrota”. Apesar dos bons resultados, Crusciol comentou que tem que se cuidar com o etil-trinexapac “porque se aplica aqui, para colher lá na frente”.

Já o fluazifop-p-butyl e cletodin matam a gema apical, deixando uma margem estreita de manobra. Se não houver uma boa programação da colheita ou ocorrer imprevistos, a cana pode apodrecer. Dependendo da variedade pode se ter perda industrial grande. Outras opções são o sulfometuron metil, o bisbiribaque sódico e o orthosulfamuron, que não matam gema apical e permitem que a cana volte a crescer, caso haja algum problema, sem danos a cultura e sem comprometer a brotação.

O professor doutor citou ainda que cana que tem potencial produtivo não pode travar cedo e que tem que levar em conta previsão de chuva ao aplicar o maturador. Caso haja uma chuva após a aplicação, perde-se de ½ kg a 2 kg de ATR por dia, fora as impurezas.

Com a chuva, a cana volta a vegetar de imediato e em vez de continuar produzindo, usa o açúcar acumulado. O problema é que normalmente só se atenta para isso quando emite folhas. “Mas aí já perdeu de 10 a 20 kg de açúcar por hectare num curto espaço de tempo”, lamenta.
Se tiver muito broto ladrão, então, Crusciol afirmou que a produção de açúcar pode cair em 50% e a cana soca ainda fica sem força para rebrotar.
“Tem que passar disco enterrando fósforo e boro ao lado, na boca da raiz, para reestartar o crescimento. Tem que fazer um manejo diferenciado quando houver muito broto ladrão para não matar o canavial. Senão vai ter que reformar o canavial mais cedo”, finalizou.