Por Silvio Crestana, Ana Celia Castro, Roberto Rodrigues, Luís Carlos Guedes Pinto e Pedro de Camargo Neto
O atual momento é crítico, pois as mudanças climáticas impõem enorme pressão em todos os setores produtivos.
O sucesso do setor do agronegócio no Brasil tem na inovação um elemento fundamental. Foi com os resultados da ciência que nos tornamos potência. Pesquisa pública e, destaque-se também, muita pesquisa privada permitiram produzir mais e melhor com menor área, sustentabilidade e custos reduzidos. O atual momento é crítico, pois as mudanças climáticas impõem enorme pressão em todos os setores produtivos, em especial o agrícola, pois dependente do clima. A previsão é de um futuro caracterizado por temperaturas crescentes, maior aridez e eventos climáticos mais extremos, como secas e inundações. As projeções indicam que essas mudanças se intensificarão ao longo do tempo. Avanços nas ciências ômicas e nas tecnologias digitais são fundamentais. Nunca precisamos tanto de pesquisa agrícola.
Convidados a pensar e propor certa renovação ao Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (SNPA) e à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), os autores deste texto, após seis meses de debates internos e consultas a dezenas de pesquisadores e lideranças do setor agropecuário, apresentaram ao ministro Carlos Fávaro, em outubro de 2023, relatório com uma proposta de renovação. Houve claro consenso, primeiro entre os autores e, na sequência, com a grande maioria de entrevistados, indicando um caminho. Conscientes de que o convite e a proposta eram eminentemente de caráter consultivo, entenderam que a missão, que foi extremamente prazerosa, estava cumprida.
Os autores partiram da premissa de que o maior patrimônio da Embrapa são seus servidores. Os princípios de gestão devem permanentemente valorizar cada membro da empresa, suas habilidades e contribuições, reconhecer os esforços individuais, aumentando a motivação e a satisfação no trabalho. Um ambiente diversificado e inclusivo gera maior inovação e criatividade. A orientação deve estar voltada à igualdade de oportunidades e reconhecimento de talentos. Essencial manter canais de comunicação abertos e transparentes em todos os níveis da organização, na construção de confiança e compreensão das necessidades e preocupações dos servidores, em busca de um alinhamento com a visão e a missão da empresa.
Importante manter o caráter de pesquisa pública orientando seus investimentos ao desafio do desenvolvimento nacional sustentável. Atuar garantindo maior eficiência ao significativo volume de recursos públicos já destinados à empresa. Essencial maior aproximação com a sociedade, garantindo a correta sinalização e o direcionamento das pesquisas, inclusive com possíveis formas inovativas de parcerias com a sociedade.
Recentemente, acompanhamos a divulgação de notícias sobre crise financeira na empresa. Embora o valor total de recursos do Tesouro venha sendo mantido, hoje em cerca de R$ 4 bilhões, o montante em recursos livres vem caindo, criando embaraços diversos. A posição do atual governo tem sido procurar fontes externas que complementariam os recursos do Tesouro. Em plena crise financeira, planeja também ampliar três locais para novas unidades de pesquisa. As novas fontes de recursos ventiladas, infelizmente, não nos transmitem a necessária segurança. Embora o montante total de recursos públicos seja significativo, falta um porcentual que relativamente é pequeno, mesmo que no absoluto seja grande. A ausência desse valor tem prejudicado a boa utilização do todo.
Hoje, avaliamos que a empresa enfrenta maior dificuldade do que no início das consultas. Reconhecemos o caráter consultivo do nosso relatório, porém nos preocupa o futuro da agricultura brasileira. Reforçamos o caráter de pesquisa pública. Em momento de relevante demanda por tecnologia, a empresa não está conseguindo apoio político para um maior investimento de recursos públicos. Os impactos dos eventos climáticos não criaram o apoio a um maior orçamento público.
O distanciamento entre o pesquisador e a sociedade dificulta, além do direcionamento do que deve ser pesquisado, a compreensão dos investimentos necessários dos recursos públicos. Os atores, agricultor e consumidor, precisam estar próximos, acompanhando, direcionando e apoiando a utilização dos recursos dos contribuintes de impostos.
Recomendamos transferir responsabilidade e gestão para mais próximo dos pesquisadores e equipes. Recomendamos o envolvimento da sociedade nas avaliações dos trabalhos realizados. Acreditamos hoje que as avaliações ficam restritas ao ambiente interno, não expondo à sociedade, provedora dos recursos, seus resultados, sua eficiência, seu rumo. O envolvimento do pesquisador local com o interessado em seus resultados já se mostrou uma forma efetiva de construir o apoio político para os recursos públicos necessários (Silvio Crestana, ex-presidente da Embrapa; Ana Celia Cstro, professora titular na Universidade Federal do Rio de Janeiro; Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, Luís Carlos Guedes Pinto, ex-ministro da Agricultura, Pedro de Camargo Neto, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira. São membros do Grupo de Trabalho Estudos Avançados para o Aprimoramento do SNPA criado pela Portaria nº 56; Estadão, 27/2/25)